Por conta dos últimos acontecimentos, recebi uma enxurrada de mensagens de pessoas me pedindo um posicionamento público sobre competições no Parkour. Eu não as culpo. Eu sempre fui muito enfático sobre esse assunto,  normalmente o primeiro a me opor à elas e aquele que justamente aparecia para dar o empurrão inicial e que sempre levava uma galera junto ao discurso de contrariedade e oposição. Quanto a isso, o meu pensamento pouco mudou: continuo bastante ativo e engajado em proteger e lutar pelo que acredito. Talvez um pouco mais paciente, mais tolerante e menos agressivo. Então, por esse motivo, dessa vez optei por deixar minhas palavras ácidas de lado, enxergar de fora o cenário e tentar compreender o que os praticantes querem, o porquê querem e o quê querem. Assisti de camarote o levante de muita gente. Vi muita briga, desrespeito e argumentos malucos dos dois lados. E foi aí que nasceu a ideia para esse texto:

Que tal se o debate sobre competições no Parkour saísse do óbvio e dos discursos reacionários que pregamos no Brasil desde 2005? E que tal se as livres agressões fossem deixadas de lado, os nomes dos nossos amigos não fossem citados e a gente avaliasse o que de fato isso tudo representa?

Eu não posso garantir que esse texto não se perca em seu objetivo ao longo do processo. Eu sei que em alguns momentos eu terei que interceder de forma totalmente subjetiva. Mas espero com ele dar o meu melhor para que o diálogo não se torne um discurso excessivo de ódio ou amor. O objetivo é apenas que você reflita (sem raiva no coração) sobre o assunto.

Como você logo irá perceber, o texto é um pouco longo e por isso foi dividido em pedaços menores. Então, cara, nada impede você de dar uma descansada aqui, outra acolá e fazer a leitura por partes. Caso opte por isso, não se preocupe que a sua compreensão do todo não será afetada.

Outro fato importante é que apesar do conteúdo aqui escrito se relacionar diretamente com a competição de Parkour (Desafio Urbano) que será realizada na próxima semana, ele não se restringe somente a ela. O que pretendo, como já dito antes, é abrir interpretações dentro do assunto e permitir que você tenha acesso a pontos de vistas que talvez ainda não tenha percebido.

Não se trata de uma tentativa de mudar a sua opinião. E muito menos eu espero, em tão pouco tempo, tocar em todos os pontos de vistas existentes sobre o assunto. Espero ter êxito pelo menos no que se refere a falar dos temas mais sensíveis.

Mas, e aí? Vamos competir para ver quem aprende mais ao longo das próximas linhas?

Então, se for do seu interesse, tente me acompanhar.


“O que um evento competitivo pode trazer de bom para o Parkour?”

O mesmo que um evento grande e não-competitivo bem organizado é capaz de fazer: divulgação da atividade e propagação dos princípios e valores que a norteiam.

O Parkour cresce a passos cavalares dia-a-dia. A impressão que tenho é que não é somente no tamanho dos saltos (que cada dia são mais assombrosos) que a comunidade rapidamente se expande.  Ela cresce também (e muito rápido) em nível de organização e na forma cada dia mais rápida com que as pessoas se conectam com a prática. Em apenas 10 anos de existência no Brasil, hoje é difícil encontrar quem realmente não tenha a mínima ideia do que é Parkour. E o grande responsável por isso, sem sombra de dúvidas, foi a mídia, a divulgação e a exposição da atividade à sociedade e aos futuros praticantes.

 E eis que surge o elefante na sala de estar: você explica o que é Parkour para alguém e ela te pergunta: “Têm competição?”.

A competição foi responsável pelo desenvolvimento e expansão da maioria das atividades que eu conheço. É muito difícil você se deparar com algum esporte que não consiga rapidamente associá-lo a quem atualmente (ou no passado) era o ícone ou o melhor do ranking. Por causa da inexistência desse pódio, mesmo com tanta divulgação e a origem fantástica, o Parkour perdeu e perde muito prestígio de mercado. Eventos maiores deixam de ser feitos, patrocínios que auxiliem a pesquisa e a criação de iniciativas melhores não são firmados e o crescimento da atividade torna-se refém de si mesma e da boa vontade de algumas pessoas em ajudar. As vezes, a impressão que dá é que quem luta pelo Parkour pede esmolas o tempo todo. Sem sombras de dúvidas, aqueles que decidem viver unicamente da prática passam ainda maus bocados.

Uma competição de alto porte, abriria uma janela de informação absurda para que todos os que não conhecem a atividade fossem apresentadas a ela. É também uma oportunidade enorme para que todas aquelas pessoas que fazem trabalhos magníficos (e as vezes são anônimas do grande público) sejam ouvidas e transmitam o quanto o que fazem é importante, bonito e especial. A competição, por ela mesma, já é um espetáculo abre portas e chama muita atenção: muito mais do que qualquer valor social, moral ou filosofia de vida que o Parkour venha propagar.

As vezes, o ser humano nem gosta da atividade ou do tema. Mas só o fato de ver pessoas se digladiando umas com as outras e saber que dali alguém sairá vitorioso é o suficiente para  prender seu interesse. Quantas vezes você não ouviu um amigo seu de escola (ou você mesmo) dizer:“Deixa os caras brigarem! Separa não! Vamos ver!”?

Em um outro exemplo, será que o UFC seria hoje o que é se no ringue não houvesse sangue, traumatismo, dor e um nocaute? Você acha que o Jiu-Jitsu, o MMA e o próprio UFC seriam tão populares hoje em dia e as academias estariam tão abarrotadas de pessoas, se no ringue apenas fosse simulada uma luta, fossem feitas apenas demonstrações de técnicas ou se os lutadores não encostassem um nos outros? O público, a sociedade e a vida clama por um vencedor! Existe uma demanda de pessoas sedentas por isso! E o Parkour perde muito do interesse da grande massa (e dos investidores) quando se afasta desses conceitos.

Quem ganharia com essa esportivização competitiva do Parkour? As grandes empresas, as grandes marcas, aqueles que retiram seu sustento do Parkour e o próprio nome do Parkour que estaria mais estampado ainda em todos os lugares. Recursos seriam destinados para ele e para os praticantes todos os dias. Da mesma forma que hoje o mundo da arte marcial tem que lidar com o  UFC: de um lado, as empresas e os competidores e do outro mestres insatisfeitos e evidenciando que a esportivização de suas artes marciais não representam necessariamente algo bom para elas e podem ser inteiramente danosas ao seu objetivo real.

Para você ter uma ideia melhor de como isso ocorre na prática, no ano passado me foi oferecida uma bolsa-atleta pela Secretária de Esporte do meu Estado para que eu continuasse meus trabalhos e treinamentos com o Parkour: desde que eu participasse dos campeonatos que houvessem naquele ano. Simplesmente não havia como conciliar os meus interesse e os valores que eu sempre defendi com a necessidade de mercado.

Existe uma frase antiga, que não me recordo direito a autoria, mas que diz: “Sonho com o dia em que olharei pela minha janela e todos estarão praticando Parkour”. As competições ajudariam a alcançar rapidamente essa maior quantidade de pessoas. Mas ninguém teria como afirmar se o que eles começariam a praticar teria muito haver com o que originalmente o Parkour era. Não há como prever o comportamento do mercado.

Apesar da pieguice, do idealismo exagerado e do romantismo dentro da frase, acredito que todo praticante meio que sonha com isso também. Que um dia, aquilo que ele tanto ama seja compreendido também por todos. Porém, o que é bom pra nós muitas vezes não parece ser bom para o outro. E é justamente aí que a competição gera grandes conflitos entre os praticantes que necessitam estar evidentes no mercado e aqueles que preferem um crescimento mais lento, controlado e se assegurando que os valores originais da prática estão mantidos.

 

“Mas então qual é o problema de verdade existente no Desafio Urbano e nas competições?”

Se por um lado ele foi muito ajudado pelas mídias (sobretudo a virtual), o maior freio que o Parkour sofreu durante todo esse processo de divulgação foi o fato dele não ser naturalmente competitivo. Se achamos que o desenvolvimento dele já está acelerado (a vida nos impõe que hoje tudo seja instantâneo) se a competição estivesse presente desde o inicio da divulgação dos franceses eu não duvido que hoje o Parkour já poderia ser um esporte olímpico.

Essa característica de não-competição sempre foi um dos pilares da atividade e responsável direto por grande parte da conexão emocional e do amor que vários praticantes tem por ela. “Eu não preciso me provar melhor do que ninguém. No Parkour me aceitam do jeito que eu sou e ninguém irá me julgar por minha habilidade ou o meu jeito desengonçado de ser”. Eu já ouvi depoimentos como esse, inúmeras vezes. Esse conceito, que é a realidade de muitos,  fez do Parkour muito do que ele é hoje. Essa foi a porta de entrada de milhares de praticantes que largaram o vício do computador e dos games, vestiu um moletom e um tênis e ganhou as ruas de sua cidade e começou a pular tudo por aí. Sempre foi muito legal ouvir de quem é de fora: “Os caras fazem coisas tão impressionantes e não estão nem aí pra fama e pra medalhas. Boto fé!

Essa característica sempre foi uma das mais fortes do Parkour: essa resistência dele ao capitalismo (que não é inteiramente saudável) e ao que a sociedade programou no berço para sermos no futuro. O Parkour desde a sua criação nadou contra a corrente. Ele surgiu pra pegar a cabeça do cara e dizer: “ACORDA! Você estava sendo manipulado e controlado o tempo inteiro! Mova-se e seja dono do seu corpo, do mundo a sua volta e da sua vida!”. Esse pilar de sustentação do Parkour sofre um golpe devastador quando você insere a competição no meio dele. Talvez, com o tempo, ele até deixe de existir. Claro que você, eu e várias pessoas iremos continuar a propagar esses mesmos valores. Claro que nenhum grupo irá parar de fazer o bom trabalho que faz por causa disso. Mas eu estou falando aqui das consequências a médio e longo prazo. Chuto ao dizer que para cada informação criada para essa filosofia de autonomia, redescoberta, senso crítico e liberdade de movimentação, você tem hoje dezenas de referências te mostrando que o interesse de se praticar Parkour é outro. A forma como o Parkour é visto lá fora tem mudado de uma forma tão devagar que poucos são capazes de perceber essa mudança de valores acontecendo em câmera lenta. Mas ela está acontecendo. E daqui a algumas poucas gerações poderá já estar gigante cobrando o seu preço em nossa porta.

Com o tempo, acontecerá com o Parkour o mesmo que aconteceu com vários outros segmentos na história: tiveram seus potenciais sociais e transformadores de vida engolidos e diluídos pelo capitalismo e a necessidade do mercado. Ninguém me fará competir se eu não quiser. Óbvio. Ninguém fará quem compete deixar de competir. Óbvio. Mas a disparidade entre os dois tipos de divulgação daqui a um tempo será gritante. Na verdade, hoje isso já é uma realidade. Um dos melhores vídeos de um Blane da vida, de 7 anos atrás, tem 392 mil visualizações. O vídeo do Art of Motion do ano passado já tem 716 mil visualizações. O que você acha que está mais divulgado hoje em dia?

E isso não acontece por falta de trabalho na área não. Acontece porque é muito mais fácil aceitar participar de uma competição do que fazer um trabalho social ou de ajuda ao próximo. Acontece porque é muito mais fácil receber um valor sem questioná-lo do que quebrar a cabeça tentando entender os impactos que suas ações irão causar. Acontece porque é muito mais fácil encontrar apoio no que gera lucro do que no que visa apenas a propagação de um simples princípio.

Eu não estou dizendo que o capitalismo é uma droga. Eu estou dizendo que ele pode ser quando não houver freios para o seu uso.

Com o compromisso gerado com a indústria que promove as competições virá o efeito colateral causado pela falta de controle sobre a imagem do que estará sendo veiculado em cima do nome Parkour. Esse nome passará a servir aos interesses de uma empresa, não mais aos praticantes. Uma vez que você é “pago”, você tem compromissos a seguir. E esses compromissos podem ser totalmente contrários ao que você acredita e bastante diferente do que o Parkour era quando foi criado.

Pegando a história recente, temos a confusão que foi o projeto Art of Motion Brasil. A Redbull sambou na cara dos praticantes, dos organizadores e ficou tudo por isso mesmo no final das contas. E ela não se importa. Claro que não! Obviamente, a corda sempre irá arrebentar do lado mais fraco e esse lado é que terá que arcar com o problema mais tarde. A voz do praticante sempre será abafada pelas grandes empresas quando assim for do interesse delas. A Redbull é mestra em fazer isso. E a Globo… Preciso falar mais alguma coisa? Estamos diante de uma rede de televisão que é a maior mestre do país nesse assunto!

O problema no final das contas é:

Como iremos fazer futuramente para que o cara compreenda o espírito da coisa toda? Nenhuma competição até agora teve sucesso em transmitir os valores do Parkour adiante.

Devo lembrar dos inúmeros acidentes causados pelo Art of Motion (e demais campeonatos) onde as pessoas se desrespeitam e se quebram na ganância de levar o troféu pra casa?

Ou devo lembrar que alguns dos praticantes do Desafio Urbano são justamente aqueles que invadiram o evento da Redbull por ser contra competições?

Os valores continuarão a existir. Um valor não se perde. Mas ele pode ser diluído ao ponto de se tornar bastante difícil de encontrá-lo por aí.

 

“É inevitável. Acostume-se.”

Esse é o inicio do discurso de dois tipos de pessoas: daqueles que nunca movem o traseiro para fazer nada e daqueles que se incomodam com quem faz alguma coisa. Quando uma tempestade é inevitável e vai invadir a sua casa de qualquer jeito, você abre os braços, se acostuma e deixa tudo pelo que você lutou ser destruído ou você se prepara para se defender e minimizar os danos?

A competição dentro do Parkour é inevitável sim. Na verdade, como eu já disse, não estamos tratando de algo novo. Ela existe desde o começo da atividade em Lisses: desde os primeiros saltos da Place du Chevreuse até o desafio de saltar o Man Power Gap. No Método Natural, aquele que é menos adaptado aos exercícios propostos é considerado inapto e inferior ao outro. E quem aqui nunca brincou de propor desafios no meio do treino e se divertir pra caramba quando seu amigo não consegue acompanhar? Então não faça cara de surpresa porque não estamos falando nenhuma novidade. Fazemos pequenas competições todos os treinos.

O que é evitável (e deveria ser essa a intenção de quem defende um Parkour não competitivo) é a banalização do termo e a deturpação de valores que sempre estiveram atrelados à disciplina. Existem competições e competições. Um “Desafio Urbano”, embora eu não simpatize com ele, tende a ser estupidamente menos agressivo aos valores do Parkour do que o “Art of Motion”, por exemplo. Mas ainda assim, pelos motivos já citados anteriormente, nocivo.

“Belle falou no último vídeo que as competições estão liberadas.”

Não ele não falou isso. E quem disser isso deveria ter vergonha na cara por distorcer as palavras do cara.

O primeiro problema dessa afirmação é da pessoa achar que David Belle é o dono do Parkour e, portanto, o que ele mandar deve ser seguido sem questionamentos. É de uma hipocrisia absurda pessoas que ignoraram durante anos qualquer palavra do cara, do nada, agora querer citá-lo porque o conteúdo de sua última entrevista pode ser conivente com o que se acredita. Isso é nojento porque essas mesmas pessoas nunca repetiram e sempre ignoraram os outros montes de palavras que já saíram da boca dele. Palavras essas que muitas vezes contradizem tudo que elas fazem em seus treinos e na vida real. Belle é um dos pilares do Parkour Mundial. Um cara excepcional. Mas como ele mesmo diz na entrevista (que muitos só parecem ter conseguido captar o que é importante pro umbigo) ele não se considera dono de nada. Até porque quem conhece o mínimo da história do Parkour sabe que, se ele afirmasse que era, ele estaria sendo bastante hipócrita.

Segundo que o discurso dele na entrevista dá conta apenas de que cada um é livre para fazer o que bem entender com o que aprendeu no Parkour. E isso nunca foi questionado por ninguém. A liberdade sempre foi individual, antes de Belle ou depois de Belle. Isso não quer dizer, em nenhum momento, que o Parkour é um cabaré onde tudo é permissível, onde qualquer coisa que se fizer com ele está bom e que ninguém sairá prejudicado no processo. Ninguém é obrigado a concordar com nada que você faça com o Parkour! Mesmo se o Belle assinar embaixo uma carta dizendo que te apoia! Do contrário, usando um exemplo bem dramático, com as mesmas palavras dele eu poderia dizer que estou autorizado a assaltar casas. Afinal de contas, o parkour me ensinou a entrar nelas e eu sou livre pra isso. Mas não é assim que a banda toca.

 

“Tá achando ruim? Ao invés de reclamar, trabalhe.”

Mais trabalho? Sério? Eu vou até começar a me pagar um salário depois dessa.

As pessoas têm o péssimo hábito de quando se acharem agredidas com uma opinião, querer retribuir na base da pancada. Muitos consideram que se a reclamação não for favorável aos interesses, ao invés de se ter um diálogo sobre o assunto (como o que estamos tendo agora) é preferível partir para o ataque pessoal: “Você diz que tá errado, mas você está errado também por isso, isso e isso!”. Que baixo e que pequeno…

Na maioria das vezes, quando vejo essa frase sendo usada por aí, o camarada nem sequer sabe com quem fala! Já vi casos recentes onde a mesma pessoa que diz que o cara “devia se preocupar em trabalhar” era (e ele desconhece esse fato completamente porque é pessimamente informado) o mesmo cara que se arromba para organizar os treinos de iniciantes da cidade onde mora ou até mesmo o organizador de um encontro que ele já foi.

Então, menos né? E muito cuidadinho para da próxima vez que falar algo do tipo você não acabar cuspindo no prato que comeu.

“Porque se preocupar? Vai mudar algo no seu treino ou na sua vida?”

Esse é o problema. O mundo lá fora nos cria tão mal para pensarmos apenas em nós mesmos que o Parkour luta diariamente contra toda essa corrente de ignorância que você citou agora.

Eu não preciso de mais nada além de mim mesmo para os meus treinos. O Parkour guia o indivíduo para a autossuficiência, tornar-se seu próprio gestor e o único responsável por seus caminhos. Tomando-me como exemplo, eu não ganho absolutamente nada escrevendo esse texto e mantendo esse espaço vivo junto ao Alberto Brandão. A gente faz isso justamente PORQUE A GENTE NÃO SE PREOCUPA SÓ COM A GENTE. Para você ler isso, eu levei 4 dias e tive que usar meu tempo livre entre faculdade/trabalho/treino. Será que eu não tinha coisa mais legal pra fazer?

O empenho de quem trabalha em prol do Parkour não é para mudar a sua própria. Essa mudança se faz em casa, sem espalhar por aí. A intenção desse trabalho é ajudar a mudar a vida do outro! Você só conhece o Parkour como ele é hoje, você só teve incontáveis horas de felicidade com seus amigos nos treinos porque alguém lutou para que você tivesse direito e acesso a isso! Caramba!

Todo e qualquer praticante é fruto daqueles que lutaram para que a prática fosse adiante. Não seja mal agradecido e queira parar essa onda de altruísmo agora que você já conseguiu o seu. Isso é egoísmo! Do contrário, seria muito mais mais fácil e cômodo, eu e o Beto simplesmente desligar o computador e ir treinar ou cuidar do monte de coisas que temos obrigação de fazer…

O que mais vejo acontecer é que todo mundo adora falar sobre paz, mas ninguém quer educar para a paz. Sabe porquê? Porque educar custa tempo, dinheiro e muita paciência. O saldo atual de informações que um iniciante encontra ao fazer uma busca on-line sobre Parkour, é muito mais favorável ao ego, a competição, ao radicalismo e ao risco do que aos pretensos valores que fundamentaram a prática. Mesmo com tanta coisa boa por aí. Se duvida, abra os olhos e passe a prestar atenção nas perguntas que hoje são feitas pelos iniciantes por aí…

As pessoas proativas no Parkour não precisam de texto, de vídeo, de fama, de medalha ou do aval de ninguém para continuar o seu caminho. Elas se motivam todos os dias com o seu próprio crescimento. Minha preocupação (e a desses outros gigantes) esta centralizada no iniciante de hoje, de amanhã e de daqui a 10 anos. O que o Parkour com o tempo tem se tornado? Os futuros praticantes não estão mais com o direito de escolha nas mãos. Eles estão sendo impostos a cada dia mais a uma atividade que é apenas um fantasma do que foi um dia. E é contra isso que eu, e mais uma porrada de gente, não conseguimos concordar.

“E existe algum meio do Parkour e as competições futuramente andarem de mãos dadas?”

De mãos dadas eu acho bem complicado porque é preciso uma sensação de confiança muito grande para se dar a mão a alguém. Mas eu acredito que um dia irá existir um modelo de competição que agrade a gregos e troianos: os sedentos pela fama e para trabalhar com as grandes marcas e aqueles que apenas querem que o Parkour seja bem apresentado às futuras gerações. E mesmo assim, sempre haverá os levantes e as manifestações de repúdio. Mas respondendo a pergunta, talvez exista sim, um dia, um meio termo. E é por isso que é muito importante nos questionarmos sempre, principalmente aqueles que são formadores de opinião, sobre isso. E eu inclusive vou expor algumas maneiras aí embaixo.

Como o “Desafio Urbano” é a bola da vez, imagine se por um momento o evento propusesse percursos complexos e trouxesse no meio dos seus competidores ginastas, triatletas, a galera do crossfit, do street workout e do Parkour para se testarem? Imagine agora se no resultado final realmente os tracers fossem aqueles com melhor desempenho? Ao invés do público em casa pensar: “Caralho, Parkour é massa quero competir nisso também!” ele pode vir a pensar “Caralho, viu como Parkour deixou os caras a prova de tudo, mais fortes e rápidos que os outros competidores? Eu quero ficar assim também!”.

Você não precisaria nem dizer que o vencedor era uma ou, no caso do Desafio Urbano, uma dupla vencedora. Não haveria sequer a necessidade de um juiz para julgar os participantes. Podia simplesmente se atribuir a vitória ao time do “Parkour” (ou ao vencedor). Parece pequena, mas a mudança no entendimento e no impacto que essa informação causa é gigantesca. E eu te garanto que se o evento fosse assim, ele não teria um pingo do meu desagrado e eu ainda ajudaria a divulgá-lo.

Dias atrás me mandaram um vídeo (pela décima vez) em que bombeiros participavam de uma competição com obstáculos e que no decorrer dela, eles tinham que apagar incêndios.

Já pensou algo similar só que com Parkour?

Adoramos dizer que seríamos os primeiros a agir e os mais adaptáveis a se salvar e salvar os outros em emergências. Mas quantas vezes isso foi testado de verdade? Quando você entra num lugar novo, você também não procura mil e uma maneiras de sair rapidamente dali? Já imaginou então se a competição de Parkour fosse realmente a simulação de um desafio da vida real? E de como, talvez, isso seria impressionante, divertido, motivacional e legal?

Note o cuidado que eu estou tendo com minhas palavras porque não é tudo tão simples assim e muita coisa ainda teria que ser levada em consideração.

Mas já imaginou se ao invés de fazer o percurso que mais impressionasse os juízes para ganhar do seu amigo, você tivesse que fugir no meio dos obstáculos de um cão treinado para te pegar? Se ele te pegar, você perdeu pro cão!

Ou então se você tivesse que ultrapassar uma série de obstáculos e resgatar alguém de dentro de algum lugar que só o tracer conseguiria facilmente chegar? E já imaginou se na volta você tivesse que fazer o percurso todo com essa pessoa nas costas? Caso não consiga, você perdeu porque “não salvou aquela vida”!

Então, porque não explorar um formato onde esses acontecimentos da vida real podem ser simulados?
Uma competição que verdadeiramente prove que você é forte e consegue ser útil com essa força?
É uma possibilidade.

Olha… sendo bastante sincero, essa competição nem existe ainda e eu já estou aqui interessadíssimo em participar ou assistir!
A verdade é que eu adoraria me desafiar e ver se realmente eu sou capaz do que acho que eu sou.

Ganhar de um outro praticante, que é o objetivo dessas competições que existem até agora, não serve para muita coisa quando o assunto é “bem divulgar o Parkour”. Servem apenas para provar o quanto ainda estamos longe de um consenso e o quanto somos ainda carentes para chamar a atenção uns dos outros e para a gente.