E eis me aqui de cabeça erguida para prestar contas.

Há quase 3 anos atrás, especificamente no dia 11 de novembro de 2011, se espalhou rapidamente entre os Tracers do Facebook uma brincadeira que relacionava a quantidade de curtidas com a quantidade de flexões que deveriam ser realizadas. Era divertido tanto fazer parte da corrente quanto ver o desespero de seus amigos quando percebiam que o número não parava de crescer. A maioria dos enunciados dizia “Farei cinco flexões para cada curtida que receber nessa postagem.”. Os mais ousados trocavam a “flexão” por “planche” ou então dobravam de cinco para dez repetições. As postagens ganhavam em média de 20 a 50 curtidas, o que resultava em uma dívida de umas 250 repetições.

Achei interessante e quis entrar na brincadeira. Mas para mim, 5 flexões era um pagamento muito pobre para cada valiosa curtida que eu recebesse de meus amigos. Pensei: “Puxa vida, eles são mais especiais do que isso! Devo encontrar algo a altura”. E em seguida, para o meu arrependimento futuro, fiz essa postagem:

Como podem perceber, eu estava lascado. E não era pouco não, era bem lascado! Mais lascado do que o chão do sertão nordestino ou do que os cofres públicos com a Copa!

No total foram 109 curtidas de amigos de todo o Brasil que queriam que eu me tornasse uma pessoa mais forte. O comprometimento deles com meu fortalecimento foi tão grande que faziam questão de compartilhar a postagem e indicar outros amigos para ajudar na causa. Quanta dedicação! Eu só tenho a agradecer a essas pessoas: “Muito obrigado, amigos! Quando a gente morrer eu já sei onde procurar a sua alma.”.

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Cara, essa lista assombrou meus dias! No início, eu a imprimi e para cada treino executado eu riscava o nome da pessoa correspondente. Eu gostava de “dedicar o treino àquela pessoa”, então eu escrevia o nome dela de caneta no meu braço ou então carregava comigo uma lembrança foda que passei ao lado dela. Dessa forma, o treino se tornava uma homenagem e assim um pouco menos sofrido. Quer dizer… não era sempre SEMPRE assim… Nos dias em que eu estava muito de ovo virado ou morrendo de preguiça, quando eu executava as flexões ou os climbs eu tinha contato visual com o nome da pessoa, então cada repetição era seguida de um “filho da puta!”. Me desculpe, mas as vezes eu xingava essa pessoa o treino inteirinho! =x

Mas a verdade mais verdadeira mesmo é que eu brincava de todas as formas que podia para que a vontade de simplesmente dar as costas não fosse maior.

Eu não sei quantas vezes li todos esses nomes.  Tem pessoas que eu nem possuo a maior das amizades mas que o nome se tornou íntimo a mim e espero que ela saiba disso um dia.  Outros são meus irmãos de muro e parceiros de anos de jornada: com certeza a força deles se juntava a minha no cabamacho que levava o seu nome e com certeza estabelecíamos uma comunicação naqueles urros que eu dava para suportar os abdominais estáticos ou no último grito de explosão para finalizar os climbs.

Sou hoje mais forte, pulo mais longe e subo muros mais rápido graças a esse compromisso e a vocês, cada um que fez parte dele.

Para os leitores novatos do DCM e que não estão familiarizados com o Treino do Caba Macho, ele consiste em duas rotinas: uma superior e outra inferior que devem ser seguidas conforme a tabela abaixo:

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A exemplo da contagem que os condenados fazem em suas celas foram 2 anos, 6 meses e 21 dias de dívida. Dois anos e meio sendo atormentado pelo peso que cada curtida depositou em minha consciência. Nesse tempo fiz*:

  • 273 km de corrida
  • 5450 precisões cravadas
  • 16350 calf raises
  • 27250 bornouts
  • 32700 abdominais remadores
  • 10900 abdominais surpresas
  • 9 horas de cadeirinha
  • 9 horas e meia de abdominal estático
  • 2725 climb ups
  • 2725 puxadonas fechadas
  • 2725 puxadonas abertas
  • 5450 flexões
  • 2725 barras

* A numeração é aproximada pois não lembro se a proporção entre inferior e superior foi de 50%/50%. Acredito que fiz muito mais de pernas do que de braço.

Honestamente, achava que iria terminar tudo muito mais cedo, o que me leva a conclusão de que esse treino é ainda mais pesado do que eu imaginava (ou eu estou mais fraco do que quando ajudei a criá-lo). E cá pra nós, não foi uma tarefa muito fácil e nem legal conciliar meus outros treinos, minha rotina e minha vida com essa obrigação. Mas o meu trabalho não acabou ainda.

No meio do Parkour, muita gente (assim como eu) gosta de manter viva a tradição de realizar “mais uma repetição por aqueles que estavam ausentes”. Então a minha dívida sobe de 109 para 110 cabamachos.

Em comemoração ao lançamento da Camiseta do Caba Macho irei realizar essa última sequência vestindo a minha que já está para chegar. Será uma excelente cerimônia interna de inauguração (e não podia ser diferente, né?).

Espero que todos aqueles que a comprarem (ou a ganharem) se aventurem um dia no treino para se tornarem verdadeiros merecedores desse título.

Que a força que hoje habita em mim, esteja também dentro de vocês. E lembre-se: Pague sempre suas dívidas.