Escrevi esse texto a alguns meses, inspirado numa antiga postagem do pulodogato a respeito da conduta dos tracers em seus locais de treino. Vejo como uma verdadeira crítica pessoal quanto a minha incoerência quanto ao respeito que, outrora, pregava durante o treino. Naqueles dias, o tempo afastado me fez esquecer que manter certos valores acesos impede o descaminho do pensamento.

Venho de uma família é meio tradicionalista, e quando estou à mesa com meus avós, não devo mastigar de boca aberta. Quando chego do treino suado, sujo e sem camisa, é possível ver o desagrado estampado no rosto das pessoas à mesa. Isso porquê nossos antepassados tinham o entendimento de que a hora da refeição era uma hora “sagrada”, e nós negligenciamos isso!

Mas se pensarmos o que significa a hora de comer, entre as pulsões de vida e morte descritas por Freud, temos aqui um ato de “autoconstrução”. Logo respeito não é somente para com os outros, mas também para consigo mesmo. Isso nos remete ao respeito que os indígenas têm pelo seu alimento. O mesmo ocorre durante uma aula, por exemplo, com sua conduta de respeito para com o conhecimento, personificado na figura do mestre.

Por que treinamos? Por mais que sejam múltiplas as respostas, todos têm o objetivo de evoluir de alguma forma. Quem somos? Pode ser meio estranho
pensar assim, mas peço que reflita na seguinte frase: “Hoje eu sou o UM de ontem agregado a autoconstrução de hoje, para ser o UM de amanhã. Podemos resumir como: “Hoje melhor que ontem, amanhã melhor que hoje.” Devemos seguir essa linha de aprender e evoluir a cada dia de forma constante, e no treino vivemos isso de forma palpável. Portanto como não evidenciar o treino como uma autoconstrução e até mesmo como algo sagrado em nossas vidas?

Assim como um samurai observava o Bushido de forma espiritual, você deve ver o seu treino. Se agora seu treino passou a ser sagrado, os seus atos devem construí-lo como um homem, ou uma mulher, de verdade, que não vê seus atos como “simples atos” e sim como rituais. Nosso respeito é observado em todos os momentos e, como os guerreiros da antiguidade, devemos ter firmes a honra, a moral e a ética. Pois a postura que você tem perante o seu treino influi diretamente em como você é visto pelas demais pessoas.

Assim o local de treino passa a ser igual a mesa de jantar de nossa casa. Todos sabem que não defecamos onde comemos! Logo, não adotamos certas atitudes onde treinamos, pois esse local deve ser puramente preservado e respeitado como nossa casa. O local de treino é nosso templo, nosso tatame. Tire os sapatos para pisar no tatame!