Provavelmente alguns de vocês já escutaram alguma coisa sobre os Tarahumaras, uma tribo de corredores do México que vive exatamente do mesmo jeito há 400 anos. E todos eles, independente de idade e sexo, têm uma coisa em comum: todos, absolutamente todos, correm. E quando eu falo em correr, não estou falando de 5 ou 10km, estou falando de ultra maratonas, estou falando de 160, 240 km, sem nenhum tipo de proteção. Eles calçam apenas um tipo de sandália rasteira de borracha – quando não estão descalços. Entendam que estamos falado de crianças, mulheres e idosos também, e o mais assustador, todos sem nenhum tipo de lesão. Logo, eu me pergunto, o que leva a sociedade contemporânea a achar que correr, saltar, viver descalço tem um potencial lesivo tão grande? E a resposta para isso é muito clara: Quanto mais você acreditar que precisa de um tênis caro para viver, mais você comprará tênis caros para viver, impulsionando assim o comércio e fazendo a roda da fortuna girar. Mas isso já foi muito bem tratado num texto do Papo de Homem, escrito pelo nosso querido quase chileno, Alberto Brandão.

O que eu quero tratar aqui é de como nós estamos encarando a prática nos últimos tempos. Os nossos não tão distantes Tarahumaras nos mostram que algumas coisas que julgamos ser impossíveis, dependendo do ponto de vista, são apenas versões corriqueiras do cotidiano, a exemplo de correr 160km de uma vez, calçando apenas chinelos de borracha. Esses mesmos Tarahumaras desconhecem doenças, como: câncer, stress, depressão, lesões, hipertensão, diabetes, entre outras. Esses mesmos Tarahumaras desconhecem também crimes, assassinatos, roubos, enfim, acho que vocês já entenderam. Ok, muitos dirão que isso é por serem uma comunidade pequena e isolada, e é exatamente aí que eu quero chegar. Se compararmos o Parkour com outras práticas, podemos dizer que somos também uma comunidade pequena e isolada. Então, porque temos tantos problemas internos? Ok, nenhum de nós nunca matou outro praticante, verdade, mas será que não estamos encarando as coisas de uma maneira muito negativa, não?

Se pararmos um pouquinho para pensar e fizermos um link com os nossos amigos Tarahumaras, poderemos facilmente perceber que a prática se volta para esse resgate, não só o resgate de fugir ao invés de ficar e lutar, mas o resgate de fazermos do lugar em que vivemos um espaço melhor para o todo. Pode até parecer um discurso de autoajuda barato, mas a filosofia da prática, se levada ao pé da letra, é exatamente isso: autoajuda/filosofia barata. E isso não é ruim.

Este texto é um apelo, um resgate ao que estamos perdendo da prática: Sua filosofia! Alguns entendem exatamente do que estou tratando, mas entendem em seus grupos fechados, quando não deixam o parceiro de treino parar de treinar quando esse acha que chegou no limite, e muitos dirão: “- Se chegou no limite como está falando ainda?”. E é exatamente isso que os Tarahumaras faziam, eles corriam atrás das suas presas até que elas superaqueciam e morriam. Quando eu falo eles, falo todos eles. Porque, numa corrida como essa, quem é deixado para trás, morre. Logo, mulheres, crianças e idosos tinham que acompanhar na mesma velocidade e o grupo ia se moldando de forma que não ficasse ninguém para trás, para que, ao fim da caçada, a presa servisse o almoço. Assim eles sobreviveram todo esse tempo. E, a menos que nós resgatemos esse senso de conjunto, de verdadeiro altruísmo, não vamos ver a prática sobreviver. Pode ser que alguma coisa sobreviva, mas, infelizmente, não poderemos chamar isso de Parkour. Talvez mountain bike, mas, Parkour, já vai ter ficado para trás na história dos nossos egos, das nossas brigas por território.

Me assusta muito perceber que alguns tracers simplesmente não correm, ou estão tão habituados ao seu pico de treino que são pessoas que treinam, mas não praticam. Sim, existe uma clara diferença entre essas palavras, que inclusive já tratei em um texto anteriormente.

Por fim, sugiro que voltemos a correr, não só metaforicamente, mas de verdade, porque, se um senhor de oitenta anos pode correr 160km, você pode fazer mais que um flow de quinze segundos.