Recentemente o Desafio Urbano, revolveu uma discussão antiga no Parkour: O Parkour competitivo e/ou esportivizado.

O debate segue quente, temperado de idealismo (romântico), carecendo de argumentos que expliquem e justifiquem o posicionamento dominante da comunidade de praticantes. Nada contra os argumentos apaixonados, mas sinto falta de argumentos mais racionais, mais reflexivos e menos reativos.

Assim sendo, explico minha posição. Entretanto, evitando idealismos e tentando possibilitar outras novas discussões.

#Sou CONTRA competições no Parkour.

Reconheço que competições significam na verdade consolidar os processos de esportivização da prática do Parkour. Para os que não estão familizarizados com o termo, “esportivização” é o fenômeno de transformar uma manifestação da cultura corporal que não é esporte em esporte. Usando o Parkour, por exemplo, esportivizar é normatizar e padronizar o Parkour. Melhor ainda, esportivizar o Parkour é regulamentar e institucionalizar o Parkour. Isso é ruim? Pessoalmente acredito que sim.

O Parkour é uma construção cultural. É influenciado por cada contribuição positiva e/ou negativa dos participantes (praticantes, estudiosos, admiradores, provavelmente você que está lendo, etc…) de sua construção. Isso quer dizer que cada um de nós é responsável pelo seu desenvolvimento. Nós decidimos através de diálogos e atitudes qual caminho a prática deve seguir.

O Parkour-Esporte não está representado pela comunidade de praticantes. Semelhante ao Futebol, que é representado pela FIFA e não os jogadores e praticantes do Futebol, o Parkour estaria representado por uma instituição. Qual o problema? Para começar: imagine que o Parkour agora é um esporte e agora tem uma instituição representativa, a FIPKA.

Quem organiza a FIPKA? Quem toma as decisões na FIPKA? Quem decide o caminho que a prática deve seguir? Provavelmente nenhum de nós. Eu não me sinto confortável em ter pessoas me representado sem que eu as conheça e as tenha escolhido. Eu prefiro me representar. Mas vamos continuar…

Quais os interesses da FIPKA? Como são definidos os interesses da FIPKA? Eu não faço a mínima ideia sobre como uma instituição dessas conseguiria atender os interesses de todos os praticantes (se é que isso é possível). Isso significa que a FIPKA atenderia os interesses de um pequeno grupo de praticantes ao invés de todos os praticantes. O que levaria a FIPKA a defender interesses de um grupo em detrimento de outro? Como ficaria a parcela não representada da comunidade de praticantes? Mas vamos continuar…

Saindo do problema da representatividade de uma instituição (aqui apenas plantei a semente da discórdia, pois esse tema merece um texto dedicado) vou expor o meu ponto de vista sobre onde a coisa realmente complica.

O Parkour-Esporte é definido pela sua instituição representativa, a FIPKA. Quando a FIPKA define o Parkour, ela determina uma estrutura mais ou menos invariável de características para a prática. Dessa forma, o Parkour se torna algo padronizado, invariável independente de contexto sociocultural. Usando novamente o Futebol como exemplo, o Futebol para ser Futebol tem que seguir TODAS as suas características determinadas, ou seja, seguir TODAS as regras determinadas pela FIFA (pesquise as regras na internet). Se qualquer uma das regras for modificada por qualquer motivo, isso deixa de ser Futebol e vira o que aqui em Salvador chamamos de “baba” (no Rio se chama “pelada”).

Isso significa que todas as mudanças no Parkour que fugissem as características determinadas pela FIPKA fariam o Parkour deixar de ser Parkour. Desculpa se pensa o contrário, mas uma das coisas mais incríveis do Parkour são suas diversas interpretações e que são construídas localmente através dos praticantes sob influência do cenário em que vivem. É essa variedade de interpretações que torna a troca de experiências entre praticantes algo incrível.

É aqui que as competições começam a participar do problema. Como colocar praticantes com diferentes interpretações do Parkour para disputarem numa mesma competição? Como decidir quem ganhou?

Para decidir quem ganhou é necessário estabelecer um resultado na competição que determine o vencedor. No Futebol isso seria o maior número de gols marcados em 90 minutos. E no Parkour? Qual resultado poderia determinar o ganhador da competição sem que a relativização da prática em relação aos praticante se perca? O tracer do nordeste é diferente do tracer do sudeste,. Praticam Parkour mas de formas diferentes. “O melhor” ou “o pior” se torna uma questão de ponto de vista, uma questão relativa. E aí? Como se faz? Consegue perceber como competições limitam a prática do Parkour?

A existência de competições no Parkour influenciaria essa definição drasticamente porque para ser competitivo o Parkour precisa apresentar resultados objetivos e genéricos; e para apresentar esses resultados ele precisaria ser também objetivo e genérico. Para mim isso é sinônimo de superficialidade. Algumas coisas seriam proibidas e/ou restringidas, outras ultra-valorizadas e/ou desprezadas em prol da competição, em prol do resultado determinante do vencedor. O problema nisso tudo é que o foco do Parkour é o traceur. Não é você que se adequa a prática é a prática que se adequa a você. No caso do Parkour-Esporte, não seria à prática que você teria que se adequar, mas sim à competição em que estaria envolvido ou se envolvendo.

O Parkour-Esporte perde complexidade e subjetividade. Buscando o resultado que determina o ganhador, os praticantes passam a escolher somente aquilo que produz avanços na obtenção do resultado competitivo. O problema é que o contexto competitivo é distante da realidade do praticante. Ele não contempla o caminho percorrido para a obtenção do resultado. Por exemplo: Eu tenho uma lesão, mas apesar disso treino bastante e minha precisão mede 10 pés. Já o meu adversário é um talento nato, nasceu para praticar Parkour, treina quase nada, mas sua precisão mede 12 pés. Em uma competição de maior precisão, claro que ele ganharia. Mas o fato dele ter ganhado faz o meu treino e esforço vale menos? Quem merece vencer, de fato? Desnecessário dizer que esta é uma pergunta capciosa pois tentar julgar e decidir quem vence numa situação dessas para mim já é errado.

Falando mais sobre os problemas das competições no Parkour. Percebo que existe um conflito entre os propósitos da competição e os propósitos da atividade. O propósito do Parkour é o desenvolvimento físico, mental, moral, social individual. O propósito da competição é determinar o vencedor. Aparentemente esses propósitos não são conflitantes, mas basta questionar como uma competição determinaria quem se desenvolveu mais que a coisa empena. Desenvolvimento físico, mental, moral social individual é algo subjetivo; vai variar entre praticantes. Definir o vencedor de uma competição, novamente, dificilmente contemplaria toda essa subjetividade. O mais rápido é o mais desenvolvido? E o mais habilidoso? O mais resistente? O mais consciente? O mais altruísta? Quem vence? Percebe que a competição desvia o foco do propósito do Parkour para a busca do resultado da vitória seja ele qual for?

Ainda falando sobre competições no Parkour: Imaginando que existe uma forma de competir e exista uma forma de vencedor, o que isso significa? Pergunto isso porque para mim o Parkour propõe uma disputa singular, um conflito interno, o praticante contra o obstáculo, onde o sucesso ou o fracasso possuem significado somente para o próprio traceur. Essa vivência propõe uma experiência introspectiva, uma reflexão pessoal, sobre como o traceur lida consigo mesmo, seu treino, sua vida. Isso é lindo! E vencer o outro significa o quê?

Pessoalmente acredito que o sucesso ou o fracasso em superar um obstáculo é a experiência mais profunda no Parkour. O obstáculo é inabalável e irrefutável. O que ele diz para você é igualmente inabalável e irrefutável. O fracasso contra o obstáculo lhe diz que você não foi suficiente, o obstáculo lhe cobra mais treino, mais dedicação, mais entrega e mais abnegação. Não adianta inventar desculpas. Na disputa entre o praticante e o obstáculo, o fracasso é somente seu. Lide com isso, viva com isso e supere isso.  O sucesso aqui tem valor menor. Somente diz que existem outros obstáculos, ou melhor, que existem outras experiências de autoconhecimento, mais complexas e profundas e que você deve buscar isso tudo. Isso é Poético! E o sucesso e o fracasso contra outro traceur significa o quê? Não sei, mas reflito muito sobre.

Disputar contra outro praticante compromete a experiência introspectiva do sucesso ou fracasso em superar o obstáculo. O obstáculo, novamente, é inabalável e irrefutável, o adversário não é. Quando eu supero meu adversário eu superei porquê? O obstáculo exigia mais dele do que de mim? Quem estou superando quando ganho uma competição? O obstáculo? O adversário?

O problema aqui está na vitória-derrota. A vitória de um participante implica na derrota de seus adversários e voluntariamente ou involuntariamente, a disputa entre tracers produz uma relação de pressão.  Por exemplo, numa disputa entre dois traceurs, se o primeiro realiza uma precisão de 12 pés, o segundo precisa realizar uma precisão de pelo menos 12 para se manter na disputa. Como esses praticantes se enxergam? Como isso influencia suas posturas e decisões?

Fora das competições, essa relação de pressão (onde um traceur pressiona ou é pressionado pelo outro) também existe. Entretanto, fora das competições o objetivo não é a vitória, mas a superação de um obstáculo. Fora das competições, o primeiro traceur, ao fazer a precisão de 12 pés, está dizendo: “Olha eu consigo, isso quer dizer que você consegue também, tente!”. Fora das competições, exercer pressão ou ser pressionado é um exercício de compreensão, respeito, motivação. O objetivo é a melhora do outro.

Dentro das competições essa relação de pressão se transforma: pressionar ou ser pressionado significa afirmar uma posição de superioridade – que já entendemos anteriormente que é relativa. Dentro das competições, o primeiro traceur ao fazer a precisão de 12 pés está dizendo: “Olha, eu consigo. Ou você faz melhor ou você perde a competição, quero ver!”. Dentro das competições, exercer pressão ou ser pressionado é uma afirmação e uma imposição. O objetivo é se afirmar e impor como superior ao outro.

Com essa pressão, obviamente extrairemos o máximo possível da performance do praticante. Mas pagando qual preço? Saúde? Valores? Não é drama. A história mostra. As competições extraíram o máximo (não o melhor) de nós. Mas também extraiu aquilo de pior que existe em nós.

Temo sobre como a competição e a esportivização podem mudar o Parkour, na prática. Durante todo texto procurei explicar como as competições podem interferir na forma como vivenciamos o Parkour, pois é na forma como vivenciamos o Parkour que definimos o Parkour.

Acredito que a forma como vivenciamos o Parkour e por consequência como definimos o Parkour superou a necessidade por competições. Em algum momento, no desenvolvimento da prática, os praticantes entenderam que não precisavam mais competir. E fico me perguntando: porque voltamos a precisar disso? Precisamos questionar “por quê competir?”, “como competir?”, “quando competir?”, “quem compete?”, “quem ganha?”e “quem realmente ganha?”. Existe muita informação para administrar e refletir ainda.

Espero que, aprofundada nossa compreensão sobre competições, voltemos a perceber que não precisamos de competições. Que já superamos esse fenômeno.

Discuti o assunto questionando e respondendo ao mesmo tempo. Obviamente existem outras respostas e argumentos. Gostaria que traceurs que concordam com competições apresentassem outras perspectivas. Isso enriqueceria a compreensão do fenômeno das competições no Parkour. Independente de posicionamento, a favor ou contra, aconselho o praticante a se perguntar, se aprofundar e se apropriar da reflexão.

Esse é meu ponto de vista, minha tomada de atitude.