Quando penso no Parkour hoje em dia a primeira coisa que me vem à cabeça é o tipo de exemplo que um traceur é e a imagem que ele passa ao meio em que está inserido. Sem dúvidas qualquer praticante já esteve em uma situação de ‘tio’ ao ser rodeado de crianças com os olhos brilhando, fascinadas com aquela pessoa que sobe naquela parede da praça que até então era proibida para elas. Acredito que esta mesma criança entre em uma reflexão interna do tipo “Se ele pode subir ali, porque meus pais não me deixam?”. São atraídas como um ímã com aquela espécie de pulação e essa é a oportunidade perfeita de contato do Parkour para com aquela família. Creio que não estou sendo pretensioso em dizer que este contato com a criança pode significar uma paixão a primeira vista pela prática ou então um trauma absurdo daquelas pessoas que estão treinando e não sabem lidar com uma abordagem dessas.

O que este praticante pode ensinar para as novas gerações vai para muito além de saber como não se machucar ao subir uma árvore. Os valores que podem ser passados para esta criança através do simples ato de se arriscar podem construir uma base extremamente firme para a formação pessoal dela.

(Nota: Risco é diferente de Perigo mas isso é assunto para outro texto).

O problema é que muitos pais de hoje educam seus filhos para o ‘não movimento’. Tenho muito medo destas crianças que hoje são educadas para o medo de se arriscar e que elas cresçam e se tornem adultos medíocres com medo de sair da sua cúpula de conforto. Este meu receio por vários momentos me fez descrer que o mundo possa ser habitado por pessoas melhores e em outros me fez chegar a conclusão de que o Parkour pode ser usado como uma ferramenta para literalmente salvar a mente das pessoas. Salvá-las de um pensamento massivo de comodismo e consequentemente tornar todo o meio em que essas pessoas vivem em um lugar melhor.

Esta minha esperança foi reforçada no 6º Workshop Precopense onde tive a grande honra de conhecer pessoalmente alguém que já há alguns meses eu acompanhava de longe pelo facebook. A pequena Camila Stefaniu, acompanhada de duas outras amigas, Mariane Ponti e Gabriele Ferreira, que formavam um trio excepcionalmente apaixonante. O que mais me chamou a atenção nas 3 não era a capacidade de movimentação (que diga-se de passagem era de dar inveja em muito marmanjo que vive postando vídeo por aí). Também não foi a qualidade técnica dos seus movimentos ou a força que tinham (que por sinal também eram absurdas). O que me conquistou foi a alegria e espontaneidade que colocavam em cada tentativa, em cada percurso, sem perder o foco e a vontade de fazer bem feito. Já tive a oportunidade de testemunhar várias crianças-prodígio no Parkour, então com certeza o que me chamou a atenção não foi o quanto elas eram boas e sim como se divertiam dentro de seus movimentos.

A inocência de uma criança combinada com sua natural capacidade de explorar o ambiente forneceram a todos os marmanjos do workshop um espetáculo de inspiração. Não posso falar por todos, mas particularmente tive a oportunidade de conversar bastante com a Mariane e observar e puxar alguns percursos com a Camila. Infelizmente não tive tanto contato com a Gabriele, mas nos próximos encontros não vou perder essa oportunidade. Eu fico emocionado e eternamente grato por tudo que ouvi e vi das meninas.

A Mariane é simplesmente uma princesa, fala de uma forma apaixonante e com certeza convenceria até o mais cabeça dura dos conservadores da ‘cultura da não movimentação’ a se embelezar pela prática. Com a Camila o contato foi mais físico do que verbal, ela é brutíssima sem perder a suavidade de uma fada. Nós treinamos mais do que conversamos, mas foi o suficiente. Ela deixa bem claro o que quer dizer com a sua movimentação e se move de uma forma tão pura que me deixou com vergonha de ter engessado tanto a minha prática para um padrão ‘adulto’. Isso para não mencionar as postagens indignadas com o cenário atual do Parkour que a menina faz (que por sinal eu já vinha acompanhando a um bom tempo pela internet). Em absolutamente todas suas postagens ela mostra-se completamente antenada e interessada nas discussões. Além do interesse é presente a curiosidade de uma criança fascinada em aprender, completamente receptiva às informações sem perder nada e com um filtro absolutamente crítico que não engole qualquer coisa que infoescola.com posta.

Gostaria de ressaltar aqui dois momentos que representam muito bem pra mim o que senti ao treinar com crianças que também são traceuses. A primeira foi logo no começo do segundo dia de workshop onde o pessoal havia trazido plintos e montaram uma estrutura simples porém extremamente divertida no alojamento. Enquanto a maioria das pessoas formavam filas para fazer os clássicos Double-kongs, Monkey-precisions e strides pela estrutura, observei que as crianças cagaram para o que todo mundo estava fazendo e foram fazer cat leaps do outro lado da estrutura e só progrediam a distância quando todos acertavam. O mais incrível não foi somente a autonomia de procurar exercícios por si só quando todos estavam usando a rédea do Monkey-precision, o mais incrível foi ver que aos poucos todos os marmanjos começaram a se desligar disso e a segui-las. Em 20 minutos não havia mais ninguém nas movimentações de evento e estavam todos formando uma fila absurdamente grande atrás das pequeninas. Quando qualquer uma delas iria fazer algum movimento não era incomum ouvir sussurros do tipo “Mano, olha lá, ela vai saltar”. E o melhor era que provavelmente elas nem perceberam isso de tão focadas que estavam no seu treino.

Me perguntei quantas vezes a galera ali fazia um movimento realmente para si mesmo. Caso não saiba a resposta para essa pergunta, recomendo que vá a qualquer evento de Parkour, ninguém vai precisar te dizer nada.

A segunda foi num determinado momento em que foi proposto um exercício onde saiam de duplas e um tinha que imitar a movimentação do outro. Propus a ela que fizéssemos um percurso inteiro de costas para os obstáculos. Ela concordou quase que instantaneamente com um “eu quero tentar”. Saímos correndo de costas e me impressionei com cada passagem. A maneira como ela achava para lidar com a situação era única e sem realizar o mesmo padrão para dois obstáculos nenhuma vez. Me lembrei demais do Parkour Imaginatively do Naim. Eu me senti um idiota por ter respostas tão programadas para tanta diversidade de obstáculos enquanto a minha parceira literalmente dançava e brincava com inúmeras possibilidades. Sem dúvida as pequeninas me ensinaram e resgataram inumeráveis coisas, tantas que eu não conseguiria nem expressar em palavras metade delas.

Eu amo treinar com iniciantes, aprendo muito mais com eles do que eles comigo e poderia escrever um texto para cada experiência que tive com cada um. Mas o que mais me marcou nas crianças de Cornélio Procópio foi que elas conseguiram resgatar em mim um espírito que não deveria ser deixado de lado em nenhuma pessoa, o espírito do ‘ser criança’.

Essas crianças acenderam uma reflexão absurda em mim (e espero que em vocês). Sou agora mais consciente de tudo que antes estava fazendo e de como estava progredindo como mais um adulto chato.  Acho que a citação de Foucan em seu livro ilustra bem como me senti treinando com elas.

“Crianças aprendem mais rápido que adultos, e eu penso que é porque elas se focam no que elas próprias estão fazendo, ao invés de prestar atenção no que outras pessoas estão fazendo. Elas tomam inspiração do mundo à sua volta e progridem todos os dias em seu próprio ritmo.” (Freerunning – Find Your Way, pag. 7)

(Nota: Se quiser ler o livro completo, acesse aqui.)

Talvez se as pessoas deixassem de lado um pouco de seu egoísmo do dia-a-dia e se prendessem mais aos princípios e humildade que tinham quando eram crianças, progrediriam de uma maneira muito mais confortável. Fica aqui inclusive uma pergunta que todo adulto deveria se fazer. Apesar de clichê nas redes sociais é uma ótima autorreflexão:

O que a criança que você foi pensaria do adulto que você se tornou?

Aprendi demais com essa criançada e aqui fica meu eterno agradecimento por cada segundo de experiência com elas e meus sinceros parabéns pelo ótimo trabalho que o professor Luiz Oliva vem desenvolvendo.

Não gostaria de botar o peso da responsabilidade de serem “representantes do Parkour infantil” ou algo assim em nenhuma das meninas. Ao invés disso, queria dizer para continuarem se divertindo e evoluindo cada uma em seu próprio ritmo sem se preocupar com rótulos. Já vi que elas tem muito mais conteúdo que muito praticante velho que eu conheço. E por isso, espero sinceramente que continuem estudando e aplicando os valores da prática nas suas vidas.

Fico muito mais tranquilo em saber que o futuro do Parkour está sendo construído nas mãos de traceuses como vocês. Parabéns mocinhas. Continuem sendo e durando.