Posso dizer de longe que esse é o texto mais difícil de escrever dos últimos tempos. Falar de Parkour Feminino sem cair no sexismo e tratar a questão de forma imparcial, realmente, não é uma tarefa das mais fáceis. Escrever sobre uma comunidade que eu não represento é tender a falar sobre uma perspectiva que não necessariamente é real e unânime. Por isso, antes de começar este texto, entrevistei traceuses de diferentes lugares do Brasil para entender como elas se sentiam perante a comunidade e, a partir disso, traçar uma linha crítica sobre o assunto.

Apesar de não ser uma prática genuinamente feminina, as mulheres foram, aos poucos, tomando seu espaço e se firmando como praticantes, quase sempre muito bem recebidas num meio hegemonicamente masculino. Elas foram, lentamente, mostrando que tinham os mesmos interesses que os homens ali presentes: Treinar!

Acontece que esse mar de rosas também tem espinhos e, quase sempre, as traceuses tiveram que se “provar merecedoras do título”. Ainda não tenho absoluta clareza sobre o tema, mas ouvi de muitas mulheres que entrevistei para fazer esse texto, que elas são consideradas “tracers-café-com-leite” (apesar do termo ter sido cunhado por mim, acredito que caiba perfeitamente no caso), pois, apesar de treinar junto, elas ou as opiniões delas, não são tão levadas a sério quanto a de um tracer. Ouvi de algumas garotas que, frequentemente, elas eram “deixadas de lado” quando o treino começava a “ficar sério”. Quando começavam a fazer movimentos que elas não conseguiam acompanhar. Muitas usaram isso como escada, foram atrás (mesmo que sem convite) e isso fez com que elas obtivessem uma outra maturação dos treinos. Mesmo quando não conseguiam de fato acompanhar, elas estavam ali do lado, tentando. E não só a maturação dos treinos mudou, mas a forma como o grupo as encarava também.

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Acontece que um outro grupo (o mais tímido e mais frágil), acaba ficando para trás. Sem saber direito como fazer para acompanhar. Nesse caso, é bom lembrarmos que cada pessoa tem um processo “evolutivo” único dentro da prática, cada tracer sente o Parkour no seu corpo de forma diferente. Não estou falando de filosofia aqui, estou falando do processo físico de treino, somos corpos diferentes, com uma memória muscular diferente, com um histórico físico diferente, logo, querer que o outro alcance determinado resultado, em determinado tempo, sem levar em consideração que ele e você são pessoas diferentes é, no mínimo, cruel.

Essa afirmação me fez levantar alguns questionamentos e lembrar das diversas fases do Parkour Feminino no Brasil, que meio que se confunde com a história do Parkour em si. Não há muito, surgiu uma febre de vídeos de meninas fazendo planches, garotas das mais variadas regiões, dedicando seu tempo, gravando vídeos e mais vídeos de planches e, eu posso estar muito enganada, mas a mensagem que esses vários vídeos passavam era: “Eu também consigo! Eu também posso ser forte!” Mas, o que me surpreende desses vídeos é que eles não eram só um incentivo para outras garotas, mas também um recado de igualdade. Um recado de quem quer ser visto e ouvido da mesma forma. Óbvio que eu estou fazendo uma leitura antropológica do assunto, entretanto, ela se faz necessária. O que queremos tanto provar? Afinal, não existe preconceito dentro do Parkour brasileiro, certo? Não, não está certo. Existe preconceito, e o pior tipo dele, aquele que vem camuflado na piada, na brincadeira. Por que duvida-se de que uma garota é capaz de executar um movimento x, contudo não duvidamos de que um homem seja capaz de fazê-lo? O que me leva a um outro questionamento mais profundo: O que faz de uma pessoa um praticante para a comunidade? E, por mais absurdo que isso pareça, ser legitimado como praticante não tem que ver com o seu tempo de treino, ou com o que você já fez pela prática ou a prática por você, mas sim com uma qualidade de movimentos que um grupo X espera que você tenha. Uma comparação quase que perversa entre o rendimento pessoal e o rendimento de um tracer X. Quando um tracer é comparado a outro e não apresenta níveis próximos de condicionamento físico e movimentação, ele tem seus esforços invalidados.  E, avaliando por esse lado, fica muito mais fácil entender por que mulheres são frequentemente descredibilizadas, porque, de um modo geral, elas estão mais longe dessa movimentação esperada do que os homens.

Tomar a decisão de ir a um treino onde você sabe que só tem homens e não sabe como será a recepção é uma tarefa assustadora para algumas meninas; se manter treinando, mesmo sendo a única mulher do grupo e sabendo que vão achar que “cólica é frescura” não é uma tarefa para prêmio, mas para respeito.

Respeitar a sua colega de treino é mais do que incentivá-la a treinar, afinal, “já tem marmanjo demais no Parkour e mulheres dão um charme à prática”. Isso não é incentivo, é interesse! Não se tem que tratar a praticante de uma forma especial, se tem que tratá-la como praticante.

Nunca se teve no Parkour brasileiro uma mulher com voz de verdade, apesar das iniciativas belíssimas e muito importantes, como o site Parkour Feminino Brasil, que faz um trabalho de formiguinha e absolutamente necessário. Acontece que, mesmo as mulheres que se manifestam e se posicionam nunca ou quase nunca são ouvidas.

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Contudo, temos que lembrar também que essa descredibilidade de alguns é de certa forma culpa nossa. Culpa nossa quando deixamos de nos pronunciar, quando não expomos as nossas opiniões, quando escolhemos não gravar (me incluo fortemente nesse grupo), quando taxando uma garota no treino de Maria Mureta (sim, já vi muitas meninas julgando as que comparecem ao treino, ou não treinam como elas acham “o correto”), quando, na real, pode ser só alguém apavorado querendo um apoio para começar.

Existe também um outro lado que escutei de algumas garotas que se sentem muito confortáveis por terem um certo “privilégio por ser a única mulher do grupo”. Meninas, nós não somos um brinquedo que tem que ser tratado de forma especial porque é novo ou único. Ok, isso pode até fazer bem para o ego, mas, de resto, é só reafirmar um discurso machista que não vai nos levar a lugar nenhum. Não dá pra pedir igualdade ou respeito querendo que o cara abra a porta do carro ou não divida a conta. Já passamos dessa fase.

O que precisamos afinal é de menos juízes e mais parceiros. Mais pessoas que dediquem o pouco do tempo que tem para incentivar e não para jogar sal na ferida aberta, a menos que essa seja a maneira dela cicatrizar mais rápido.

Por fim, espero que treinemos mais e tenhamos menos mimimi. Então, se querem respeito, igualdade, ou um sorvete, é melhor começar a se impor e mostrar o que você quer, afinal, ninguém lê pensamentos e a última bola de cristal que eu vi, quebrou tem um tempinho.