Existe um conceito que se faz muito claro na minha cabeça há algum tempo. Vim conversando de lá para cá sobre este conceito com algumas pessoas, e sempre posterguei este post, talvez porque saiba o grau de impacto que esse tipo declaração causa na comunidade do Parkour.

Caminhamos há vários anos discutindo a definição do Parkour, e em alguns casos, nos degladiando pela diferença gritante entre o significado direto que a pratica possui e o comportamento apresentado pela grande maioria dos praticantes. Existe, sem sombra de dúvidas, um choque quando apontamos a declaração: O Parkour visa apenas movimentos eficientes, a transposição rápida e objetiva de obstáculos, e observamos que a maioria dos praticantes dedicam uma enorme fatia de tempo desenvolvendo habilidades de movimentação estética ou inútil, como os mais agressivos poderão apontar.

Existe uma peça bem importante para o Parkour, um ator que sem ele a prática inexiste. O Tracer, por muitas vezes reduzido ao simplificado “Praticante de Parkour”, é um elemento desconhecido, pouco discutido e nada compreendido. O primeiro erro, partindo da minha análise, é a dificuldade de nos autodenominarmos Tracers. Preferindo a forma mais simplificada e compreensível para os leigos, simplesmente dizendo, “eu pratico Parkour”, como se esta frase realmente pudesse explicar todo o processo por trás do nosso desenvolvimento físico e mental. 

Seria como dizer que todo Samurai pode ser simplificado ao ato de estudar a arte da espada. Todos sabemos que vai muito alem disso.

Podemos dizer que todo atleta, praticante de esporte ou arte, seja lá onde vamos encaixar o Parkour, têm uma sede por desafios maior do que as pessoas comuns. O que eleva o Tracer a um nível completamente diferente é a busca por desafios em todos os cenários, não apenas na atividade que está inserido. Podemos ver aos montes, Tracers correndo descalço, fazendo desafios físicos  que amedrontam até os mais preparados, nadando, treinando na chuva.

O que nos molda muito além da prática do Parkour é a vontade de crescer a partir de um desafio. Quanto mais difícil a situação, mais prazer temos em tentar. Mesmo que isso signifique falhar 300 vezes até conseguir uma. Depois 2 e finalmente, 3.

O Tracer é um praticante de Parkour que cresce a partir das dificuldades que experimenta.

Por isso não é difícil encontrar também Tracers que treinam acrobacias, lutam com espadas, patins inline, hockey ou slackline. Ou todos estes ao mesmo tempo. Estranho seria se fosse o contrário, se você não encontrasse um de nós não buscando dominar um salto mortal, por exemplo.

Tudo isso faz parte da busca do Tracer em conhecer o próprio corpo, saber do que é capaz.

Sempre fui da opinião que ao invés de treinar coisas que não agregam ao Parkour em si, poderíamos estar nos tornando cada vez melhores nas habilidades que nos ajudam a sermos mais eficientes na movimentação. Mas reconheço que estava sendo simplista nesta visão. Ao pensar desta forma, ignorava toda a necessidade do Tracer também se tornar uma pessoa melhor em todos os aspectos. Seja arriscando movimentos novos, estudando assuntos que tem curiosidade ou se arriscando em atividades que apresentam mais um desafio.

O Parkour vai sempre continuar sendo uma atividade muito bem definida, o papel do Tracer é que nos leva a um horizonte que vai bem além.

É necessário para todos os que entram no Parkour encontrar esta responsabilidade, de não se limitarem aos treinos de Parkour e buscar todo conhecimento que agregue ao Tracer como ser humano. É como no exemplo do nosso ancestral de prática mais longínquo, que possui quase nenhuma interferência direta, mas que nos fez ir atrás e ressuscitá-lo pelo tamanho da semelhança com o que buscávamos. O Método Natural de Georges Hebert nos influenciou a olhar pelo lado mais humano e social do Parkour, com a capacidade de olhar para nossos semelhantes e estar preparado para ajudá-los.

Existem praticantes que buscam o Parkour pelos mais variados motivos, e não cabe a nós julgar os motivos de cada um. O que podemos fazer é transmitir este espirito para os que chegam e esperar que além de se tornarem praticantes de Parkour, eles queiram se tornar pessoas melhores.

Este é apenas um primeiro ensaio, um pensamento que está crescendo e que precisa ser lapidado. Caso tenha alguma opinião para acrescentar ou discordar do conteúdo, utilize a caixa de comentários.