Algumas pessoas acompanharam a repercussão do meu recente texto aqui no DECIMADOMURO. Confesso que, mediante o discurso de contraposição apresentado, fiquei perplexa, pois, apesar de entender a maioria das opiniões apresentadas, nunca imaginei que pessoas se oporiam a uma ideia sem nem mesmo considerarem a possibilidade de, de alguma forma, ela ser real.

Esclarecendo alguns pontos:

Em nenhum momento do texto eu afirmei que o problema em questão era exclusivo das mulheres, mas que, por se tratar de um meio hegemonicamente masculino, ele, além de se agravar com as garotas que o sofriam, se torna um problema mudo, pois as pessoas que ousaram abrir a boca foram tão massacradas que é realmente natural que a grande maioria se cale diante do problema.

Esse texto nunca teve uma proposta e/ou uma postura sexista, assim como NUNCA colocou o problema como sendo da maioria das garotas, ele simplesmente afirmou que o problema existe, e não é porque você não sofreu ele na pele que você tem o direito de julgar e/ou diminuir quem passa por ele. Infelizmente não temos um senso para mensurar isso em números.

Que fique claro que isto aqui não é uma defesa ao recente texto publicado, mas sim uma defesa às pessoas que foram atacadas; tratadas como inexistentes; “Marias Muretas”; “Pessoas que não treinam”; “Pessoas que deveriam deixar de mimimi”… Não foram poucos os adjetivos usados, não irei contemplar todos.

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Em tese, o Parkour é uma prática altruísta. Na prática, ela pratica o que melhor lhe convém. Se, por um exemplo, uma ideia pode vir a ferir o mundo ideal, hermeticamente fechado e apartado da sociedade que você criou, automaticamente essa ideia é rechaçada, sem que nem mesmo se pense verdadeiramente sobre ela.  Quando falo de “pensar” aqui, falo de se despir de preconceitos (ou ao menos tentar ao máximo), falo de conjecturar uma possibilidade partindo do outro e não do eu – para poder de fato tentar entender o outro, mesmo que, futuramente, isso signifique não concordar com ele. Mas quando, de imediato, nos opomos a uma ideia, simplesmente por ela não fazer parte do seu cotidiano, não acrescentamos nada, nem para gente, nem para o outro.

Como diria Teresinha Rios: “Respeitar é reconhecer a existência do outro”.

No texto em questão, eu cheguei a tratar da postura das próprias traceuses, as responsabilizando pelo problema. Quanto a isso, sou obrigada a pedir desculpas, não se culpabiliza a vítima em hipótese alguma. Ninguém é estuprado porque estava usando uma saia curta. Pessoas são violentadas porque um doente acha que pode impor a sua vontade aos outros. Entendam que, quando eu uso a palavra vítima, esta vem completamente desvinculada de vitimização e esse é um fator muito importante. Falar sobre o problema, trazer um problema à tona, é completamente diferente de criar um problema que não existia.

Não é porque você não tem ciência sobre um caso de abuso que ele não exista!

Muito se falou sobre o completo silêncio dessas pessoas. E eu proponho uma reflexão: Como você quer que alguém se exponha se você já começa um discurso com: “Isso não existe!”; “Isso é historinha, mimimi!”; “Vocês estão se vitimizando!”

E depois, como se não tivesse falado nada, continua: “Agora eu quero ver essas pessoas!”; “Se vocês não aparecerem vocês não existem”. É sério isso? Você realmente acha que esse é o caminho para que alguém se exponha? Talvez até fosse se falássemos de crianças que não aceitam ser desafiadas. Desculpa, não é esse o caso.

Todos nós entendemos que o Parkour preza pela cultura do esforço e, dentro desse debate, muita gente se achou no direito de medir o esforço do outro. Desculpa mais uma vez, mas você só sabe quando o calo aperta no seu pé. Você não sabe qual é o limite do outro. Você pode achar que alguém está fazendo corpo mole, quando, na verdade, naquele momento, aquilo é tudo que aquela pessoa pode dar. Que fique claro que não estou fazendo uma apologia a uma cultura do menor esforço, mas que nós temos de lembrar que não necessariamente o meu máximo é o máximo do meu colega de treino. Tudo bem que é uma linha muito tênue, mas temos que saber até onde ir. Na dúvida, use o bom senso! Na falta do bom senso, peça opinião.

Agora, vamos a um outro ponto deveras delicado. Algumas pessoas   pessoas afirmaram veementemente que o problema não existia, ao passo que falavam que isso acontecia muito mais com homens do que com mulheres, por eles estarem em maior número.

Ops! Como assim?

Como uma situação pode não existir e ao mesmo tempo acontecer mais com os homens?

Bem, alguns homens se manifestaram publicamente sobre o assunto, afirmando que passaram por isso. Logo podemos perceber que, independente de ser com homens ou com mulheres, o problema existe e precisa de espaço para ser discutido.

Um abuso não se torna maior por ter acontecido com uma mulher, mas um abuso cresce quando o tratamos como uma coisa pequena, um fato isolado, uma questão cultural. Nem tudo que é comum é correto! Durante muito tempo, foi comum queimar pessoas em fogueiras e isso era um grande evento. Ultimamente estamos vendo o crescente número de pessoas sendo linchadas até a morte enquanto os demais filmam, isso tem se tornado comum, nem por isso é correto.

É preciso que tratemos de alguns problemas para que eles não se tornem endêmicos. Não importa se ele acontece com uma pessoa ou com um milhão, um crime não se torna um crime menor por ter sido cometido por poucas pessoas. Por mais utópico que possa parecer isso tudo, acredito de verdade que “deixar a poeira baixar” e fingir que nada acontece não é a melhor saída. Por fim, me utilizarei de uma citação do Eduardo Galeano que tem uma visão que muito me contempla sobre essa tão sonhada Utopia:  “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Então, que continuemos caminhando.