Somos todos um bando de hipócritas. Essa é a verdade.

Faz 10 anos que comecei a treinar Parkour e eu esperava que a essa altura a barreira de entrada para a atividade fosse bem mais fácil. Mas não é.

No inicio do Parkour no Brasil, a dificuldade para entrar era a falta de informação. Não existiam sites, blogs, youtube, nada. O que existia eram vídeos curtos e de qualidade bem ruim. Todos os que aprenderam no começo se baseavam em observar movimentos em vídeos e tentar copiá-los. Tudo testando, vendo o que funcionava e ajustando ao que existia no ambiente.

Todos que estavam presentes no começo tinham uma ambição em comum: o aumento da quantidade de praticantes. Para o Parkour não ser confundido com um ato de vandalismo ou crime era necessário divulgar e ampliar a quantidade de praticantes. Quanto maior fosse o número mais fácil era sair para rua e treinar sem ser reprimido. A tendência é que com o passar dos anos esse ato seria cada vez tranquilo, mas não foi o aconteceu.

O Parkour se popularizou e agora quase toda pessoa sabe o que ele é. Todos os jornais do país, programas de televisão e filmes já utilizaram a arte do deslocamento, em algum formato, como parte do enredo. O problema é que nós, os praticantes, não gostamos disso e, apesar de toda exposição, nos tornamos uma subcultura cada vez mais underground.

Hoje temos vídeos, o Parkour lab, sites como o Ponto B, Academias e iniciativas de aulas de Parkour. Infelizmente a barreira agora é a própria comunidade. Criamos um padrão de exigência altíssimo para a entrada do que consideramos praticantes. Demoram meses, até anos para que um iniciante consiga postar algo sem ser ignorado ou ridicularizado. Normalmente isso acontece depois que posta algum vídeo com movimentos super incríveis.

Numa conversa com um amigo, ele destacou como se sente:

“Uma coisa que eu vejo muito é aquela coisa de só os fodões serem tratados como Tracer. Eu nunca achei isso justo e em muitas vezes eu fazia questão de nem ficar perto dos fodões, pois 50 flexões para alguém que já treina, não é a mesma coisa que 10 flexões para quem esta indo treinar pela primeira vez.”

Recentemente vi um Tracer postar um desafio com toda empolgação e ser radicalmente ridicularizado por gente mais experiente que desmereceu a iniciativa. Quem somos nós para determinar o que é um desafio? Quando tentamos equiparar o feito de outras pessoas com os nossos isso tem um nome: competição.

Entendo que é muito legal desafiar amigos, criar um clima amistoso de competição e desafio durante os treinos, incentivando ir cada vez mais além. O errado é exigir que todas as pessoas tenham a mesma capacidade, tempo de treino e experiência que nós. Este tipo de cobrança excessiva acaba afastando as pessoas, fazendo do Parkour uma atividade com um altíssimo nível de desistência.

Muitos praticantes acabam entrando no Parkour por não tolerarem o clima de competição presente nos treinos nas academias tradicionais, onde um quer sempre ser mais forte e melhor que o outro. O Parkour está indo no mesmo caminho.

Pregamos uma atividade livre de competições onde somos nosso próprio adversário. Mas criamos critérios de avaliação e julgamos todos que tentam se juntar. Um novato posta um vídeo subindo muro e o primeiro comentário que recebe é: “Pegou atrás no muro, está roubando!”. Tem Planche no vídeo? “Credo, está balançando demais no planche, quero ver fazer sem balanço”.  Todos estes comentários disfarçados de “São apenas dicas para ele melhorar” na verdade servem como julgamento competitivo: “Tá vendo, você ainda não é tão foda quanto eu”.

Muito dessa cobrança é uma justificativa para não se sentir sozinho. “Eu treino pacas, faço várias coisas incríveis. Como assim você não quer fazer tudo isso? Você tem que tentar fazer o que eu faço, assim vou me sentir mais foda ainda!”

Nos embaralhamos em aceitar que para treinar Parkour existe um mínimo físico que devemos alcançar. Conseguir fazer barras, flexões, saltos e correr. Tudo o que vai além disso é do nosso desejo de melhorar, de ser cada vez mais forte. Erramos ao impor isso para todo mundo, não deixando escolhas. Isso não faz de alguém pior, nem a gente melhor.

Por que é tão difícil elogiar um Tracer se baseando não em nossos parâmetros pessoais, mas considerando que, para quem posta, aquele vídeo é algo importante? Se alguém teve trabalho de filmar um vídeo com uma série de movimentos, por mais tosco que pareça para quem já está no caminho, aquilo é o que aquela pessoa pode oferecer. Críticas e sugestões são boas, e devem sempre ser fornecidas, mas sempre considerando o nível de quem está recebendo as dicas.

Muita gente boa está trabalhando para fazer o Parkour crescer, mas este trabalho é afetado quando encontramos uma comunidade reativa e fechada. O trabalho de abrir o Parkour é de todos nós e fiz questão de me incluir neste grupo ao longo de todo o texto. A pergunta que fica, para nos lembrar disso o tempo inteiro é: Se pregamos tanto a não competição porque continuamos nos comparando uns com os outros?