Você passa horas treinando aquela precisão mega difícil a dois metros e meio de altura e você consegue executá-la com perfeição. Ok, você treina! Mas você realmente pratica? Será que você consegue executar essa mesma precisão depois de um flow de trinta minutos? Ou melhor, você já fez um flow de mais de dez minutos?

Nos treinos, as pessoas, basicamente, se deslocam do Ponto A para o Ponto B e do Ponto B para o A. Tudo bem, você foi e voltou, mas, nesse caso, você está se utilizando da prática para um treino, você não está praticando. Acompanhou?

Vamos lá novamente… Geralmente os praticantes vão para um pico de treino e executam movimentos até a exaustão e depois vão comer um açaí. Beleza, mas, cadê a prática?

“Parkour consiste em se deslocar do Ponto A para o Ponto B” – essa parte todo mundo decorou, só esqueceram de complementar: “Até que voce canse e o cachorro coma sua bunda”.

Alguns já devem ter percebido que este texto é, antes de qualquer coisa, uma provocação. Sim, é. Mas uma provocação com o intuito de refletirmos sobre como poderíamos, de fato, usar o Parkour nas nossas vidas. Um ciclista, por exemplo, faz todas as suas atividades de bicicleta, mas um tracer facilmente me dirá que não tem como usar o Parkour no dia a dia sem ser preso. Até aí tudo bem, mas vamos continuar… Será que não é possível usar nada? Como você vai para o trabalho ou para a escola? Como você anda dentro de casa? Você levanta para mudar o canal da TV ou usa o controle remoto? Quais são as facilitações que você utiliza na sua vida, quando poderia estar se exercitando?

Pesquisas mostram que as pessoas que vivem mais são aquelas que fazem exercícios diariamente, mas não estou falando de natação, futebol, ou qualquer coisa do tipo. Estou falando de pessoas que não usam elevadores, que não usam controles remotos, pessoas que tem que se abaixar e levantar várias vezes ao dia… Pessoas que, instintivamente, estão sempre em movimento.

É bom lembrar que a prática não visa chegar da maneira mais fácil do Ponto A ao Ponto B, se assim fosse a gente dava a volta no muro e não treinava feito um jumento para fazer o climb up mais rápido e eficiente possível. Se assim fosse, não faríamos aqueles treinos de pessoas insanas, “que não servem para nada”, simplesmente para nos superar. Deveriam falar para os novatos que Parkour tem muito mais a ver com mil e uma formas de você tomar no @#, do que subir o muro bonitinho. Não me refiro àquelas insanidades do povo que se lesiona fazendo maluquice, porque, ali é melhor nem comentar, pois é capaz de ser doença.

Por favor, não me entendam mal. Não estou pregando que ninguém faça nada que não está preparado para fazer, porém, por outro lado, me ponho no papel de advogada do diabo para refletirmos se realmente chegamos ao limite ou se estamos só de frescura.

Isso tudo para pensarmos um pouco acerca de quantas frescuras nós não abrimos mão e de como a vida seria verdadeiramente melhor sem elas. Bacana que você consegue treinar cinco horas sem parar, mas, se você estivesse de fato praticando, quanto tempo você duraria?