Nos primórdios do Parkour brasileiro existiram monstros que conquistaram e surpreenderam o nosso pequeno universo. Aí eles sumiram!

o “Por Onde Anda” é uma conversa com os old-schools que fizeram parte da nossa história,  um combate à cultura do esquecimento e um “#ficadica” pra branquinho desavisado  não sair reinventando a roda.

Vou começar minha primeira contribuição desabafando: Caras, eu não aguentava mais ouvir “Cade o Onii?”!

 

“A velocidade dele me inspira e também pela brutalidade, força e potência dele. Me inspirou a mudar um pouco do meu treino, buscar movimentos mais fortes e uma movimentação mais rápida pelo ambiente.”

- Chris “Blane” Rowat

Kalebe Paiva entrevista João “Onii” Gabriel

Cara, ONDE ESTÁ O ONII? Preciso te dizer eu sempre lembro de tí quando vejo estes carinhas subindo as antenas gigantes da gringa.

Estou morando em Floripa, cursando a 8ª fase do curso de Psicologia, trabalhando em um colégio, estagiando em um órgão da prefeitura e treinando condicionamento físico em casa e na praia semanalmente.

Quando idealizamos a PKSC queríamos, além de evitar desastres, inspirar o pessoal à um caminho positivo no Parkour. Como tu se sentes hoje ao ver tua movimentação reverenciada e referenciada pela galera, mesmo depois de tantas mudanças do que bomba na web. Missão cumprida?

O que quis passar através do PKSC, troca de ideias e dos vídeos foi uma prática de PK implicada no desenvolvimento humano, considerado em suas várias dimensões: física, emocional, mental, espiritual etc. Na prática, se fortalecer e se conhecer através da autoimposição de desafios e treinamentos, evitando se expor a riscos desnecessários. Para mim o PK sempre foi uma ferramenta para, através do movimento, se conhecer, expressar sentimentos, expressar ideias. Uma ferramenta catártica e ao mesmo tempo catalisadora de mudanças. Mudanças no corpo físico, de atitudes, de entendimento e de posicionamento perante a vida. Não penso no Parkour como uma prática limitada a movimentos físicos. Considero que o mais sério são os “movimentos da mente”, as oscilações emocionais, os nossos desejos e pensamentos que refletem na nossa forma física de se mover e interagir com o mundo. Em parte, procurei expressar isso – com a intenção de motivar as pessoas a persistirem nos seus treinos (de forma segura) e na busca de autossuperações de todos os tipos. Fico contente, caso eu tenha contribuído de alguma forma nesse sentido. `

Você parou de publicar videos. Pela lógica universal da internet tu não treina mais e nem sabe mais o que é isso. certo? Como é a vida hoje?

Em função de alguns compromissos e prioridades, passei os últimos anos treinando em raras ocasiões. Voltei a treinar (condicionamento físico) em janeiro de 2014. Como falei anteriormente, Parkour pra mim é uma ferramenta para autoconhecimento e autodesenvolvimento, contudo não é a única. Atualmente misturo PK entre outras ferramentas no treino que faço de condicionamento físico – na praia principalmente. Especificando, 2 km de corrida + treino diverso em barras, troncos + 2 km de corrida + natação (surf de peito).

Parkour pra mim é uma ferramenta para autoconhecimento e autodesenvolvimento,

Percebes alguma herança dos anos de treinamento com Parkour para a “vida real”?

Sim, a passagem no PK me auxiliou na percepção e canalização de energias para ter mais disciplina, determinação e clareza de foco em outras áreas do meu dia a dia. Também me mostrou como somos especialistas em construir barreiras imaginárias e limitadoras da nossa manifestação. Tive que enfrentar barreiras reais para entender que as imaginárias eram ilusórias rsrs! Talvez seja essa uma das funções do PK: mostrar que a mente cria barreiras e problemas para serem superados, mas que no final das contas não existem. O que existe é a identificação com o problema, mantida por crenças e interpretações sobre o mesmo.

Você é um dos caras mais automotivados que já conheci, que tipo de coisa tu atribui a isso?

Eu penso que a força de vontade – que está relacionada com a manifestação de nossos potenciais – pode ser amplificada sempre. Por isso, em grande parte das coisas que pratiquei durante minha vida, tentei me esforçar ao máximo e ter um continuísmo nesses esforços. Tento ser “total” naquilo que estou fazendo. Embora tenha muitas dificuldades– preguiça, desmotivação, falta de condições ideais – não deixo que isso afete minha intenção e meu foco. No final das contas é uma questão de vontade, de bancar aquilo que se quer sem titubear. Intrepidez é uma palavra que gosto e que veicula uma idéia que me esmero em desenvolver cada vez mais.

O que te inspira hoje?

De modo geral, Interagir com a multiplicidade e riqueza da vida, lendo, refletindo, agindo e contribuindo. O dia a dia me inspira. Penso que a vida não se resume a ter uma profissão, um bom relacionamento afetivo, ter filhos e ser bem sucedido. Há muitos mistérios, muita coisa para entendermos e experenciarmos. Em suma, as três perguntas da esfinge e o preceito do oráculo de delfos me inspiram muito: “conhece-te a ti mesmo”. Atualmente minhas energias estão focadas nisso.

Sentiu falta de alguma pergunta para o nosso amigo João Gabriel Simões? Solta o dedo ali embaixo que já pedimos pro cara dar uma atenção especial.