Antes de começar a ler eu gostaria que você entendesse que o termo política ao qual me refiro é o conhecido como “a ciência da organização”; o modo como as coisas se estruturam e se estabelecem. Não estou falando somente de cargos públicos como os que existem nas Associações de Parkour de todo o Brasil e nem somente dos líderes que encabeçam qualquer grupo ou evento. Estou levando em consideração todos os processos que se estabelecem dentro de nossa atividade.

Como já estive a frente de uma pancada de projetos e atualmente presido duas associações (a brasileira e a sergipana) tenho algumas observações a fazer e, por esse motivo, todas as críticas que aqui serão feitas cabem também a mim mesmo.

O praticante de Parkour é a célula mais comum de todo esse processo organizacional. Ele deveria ser a pessoa que detêm o maior poder dentro do Parkour e, no entanto, não é o que se vê por aí. De uma maneira geral, e falando sem papas nas línguas, na maioria das vezes eu considero o praticante de Parkour um imbecil. Imbecil por não saber do poder que ele possui e por não tentar aprender a utilizá-lo. A prática que ele carrega no peito e nas camisas é o símbolo de uma transformação intelectual e social do ser humano. É uma revolução de dentro para fora e que culmina em um grito de autonomia. Ao menos deveria ser isso.

O que vejo constantemente, e a cada dia mais essa vertente cresce, é que os praticantes normalmente gostam de fingir que são livres. Pulam nas praças para exercer essa liberdade e esquecem que continuam prisioneiros de uma mente medíocre. Uma mente que aceita o que lhe é imposto de boca fechada. Uma mente que não é capaz de lutar pelo que acredita. Uma mente que todos os dias baixa os olhos para o que se vê de errado e se borram de medo de questionar ou contrariar as “mentes superiores”.

No Parkour, e fortemente no Brasil, vivemos em uma política onde os que brilham ao sol detêm o poder da palavra e controlam os passos de seus seguidores. Se o ícone do momento determinar que a nova tendência é usar sapato alto para se equilibrar em uma barra, você assistirá vários tombos de pessoas que preferem estar dentro da moda do que procurar entender se essa ordem tem algum fundamento.

Mas esses praticantes não são burros somente por isso. Eles são burros também porque antes de serem praticantes ruins eles são seres humanos socialmente ruins. Estão acostumados a serem ordenados por seus pais, seus professores, as autoridades, as leis, o governo e não conseguem se desprender da inércia e se tornarem capazes de entender o seu papel dentro deste círculo.

O Parkour para muitos não gera liberdade mental. Não se questiona o que faz; o porquê se faz; quem se é; e o que se quer.  A grande maioria prefere ser folhas ao vento. Prontas a manipulação daqueles que tiverem a coragem para levantar a voz (participar do próximo campeonato na gringa, assumir uma presidência, declarar-se líder de um grupo, abrir um site, dizer que inventou um movimento, se aventurar em programa de auditório, aceitar o papel em um comercial ou novela… etc.).

Esse nicho não é podre em sua totalidade. Existem (eu os conheço e você os conhece também) aqueles praticantes que encontraram uma nova vida dentro do Parkour. E quando isso acontece gera-se uma energia tão monstruosa que as pessoas comuns (e os praticantes medíocres a que me referi lá em cima) tornam-se pequenas a ponto de quase sumirem no chão. Esses caras gigantes, que sim, são os estandartes de ouro de nossa atividade. Eles carregam os valores e os ensinamentos de uma vida de dedicação em cada treino que comparecem. Em cada ida a padaria. Em cada atitude e ação que proferem.

Eu diria que eles são pessoas abençoadas. Porque viver sob a proteção dessa força só pode ser classificado como uma bênção. Esses praticantes tornam-se líderes sem levantar a voz. Adquirem uma reputação praticamente inquestionável. E, a não ser por aqueles que não possuem sua bravura de espírito, todos parecem por ele simpatizar e admirar. Às vezes você nunca os viu pessoalmente. Às vezes nunca falou com ele diretamente. E talvez ele nunca saiba o quanto você é grato por ele ser quem ele é.

Eu sempre questionei um pouco a postura de alguns desses ícones. Apesar de eles serem meus ícones também; as pessoas que eu carrego como exemplos e o ombro amigo que me serve de âncora para o que eu quero me tornar; algo para mim não parece estar correto quando eles tomam certas atitudes excludentes.

Alguns deles, aos meus olhos, são pilares de várias gerações de praticantes, e, no entanto, algumas vezes eles fazem questão de não fazer parte de qualquer processo organizacional. Eles se acomodam em suas vidas e sofrem calados ao observar que a atividade que amam esta sendo corroída e destruída por pessoas que não a compreenderam e não sabem muitas vezes o mal que fazem. Hoje entendo que isso não é uma covardia, mas a opção de quem optou em educar através do exemplo. Apesar de todos os pesares, ele sempre estará ali, como uma rocha, esperando qualquer praticante ou interessado que opte, como ele optou, a trilhar o caminho das pedras.

Eu questiono essa postura somente porque eu não me vejo com tal nobreza de espírito. Considero que é fácil demais fazer a minha parte sem olhar pro lado, focar nos meus treinos e deixar o mundo fazer o que quiser com o que eu aprendi a amar. Eu aprendi sozinho que o que me foi dado de bom grado deve estar acessível a todos os que queiram seguir os mesmos passos que eu trilho dia a dia. Quando esses gigantes do Parkour deixam de manifestar sua opinião, deixam de militar mais diretamente pelo que acreditam e se fecham em seu universo particular, eles perdem boa parte do brilho que deveriam ter pra mim. Porque eles optaram por abandonar a atividade que os abraçou nas mãos de quem não a merece; sendo que ela é ainda um bebê, tão jovem, imatura e nem caminha com as próprias pernas ainda. Ela precisa de toda ajuda e carinho deles e eles parecem, muitas vezes, não compreender isso.

Mas o Parkour conta ainda com pessoas que enfrentam batalhas diárias em favor dele. São aqueles que citei no primeiro parágrafo: os que se dedicam a ensinar, a organizar, a estruturar, a cobrar dos setores públicos um reconhecimento.  Eles são instrutores, líderes, presidentes, simpatizantes de causa e pessoas com energia para colocar em ação.

Quando essa pessoa, coincidentemente, é um praticante, a coisa é linda. Temos boa vontade aliada ao conhecimento de prática. É a fórmula certa para que se construa algo sólido e único. Infelizmente esse ser mágico só se manifesta em um, a cada mil praticantes. Cá pra nós, o praticante de Parkour comum só gosta de trabalhar se for em prol do seu próprio treino. E nem isso muitas vezes anda acontecendo.

O senso de coletividade real e o interesse que a prática cresça e esteja disponível para todos não é o consenso da maioria. Essa ausência dos “praticantes apaixonados pelo Parkour no poder” deixa aberto o espaço para todas as pessoas que tem disposição e vontade de trabalhar e que não necessariamente estão nas ruas.

Entramos em uma sinuca de dois bicos e colocamos nossa atividade em uma espada que corta dos dois lados. As decisões que forem tomadas por esse tipo de organizador, nem sempre irão refletir os interesses dos praticantes. Existem alguns exemplos que posso utilizar para esclarecer melhor:

Um instrutor de Parkour pode ter sempre o melhor estudo, o melhor preparo teórico e a melhor didática de instrução. Porém, se ele não foi um praticante, se ele não viveu o que um praticante vive e se ele não sofreu e se alegrou com o que os praticantes sofrem e se alegram todos os dias, como ele será capaz de transmitir adiante esse conhecimento? Sei que em várias áreas isso é possível. Técnicos de futebol que nunca pisaram em campo. Técnicos de ginástica que não sabem dar um mortal. Porém, o Parkour não se trata de um esporte defendido em cima de um conjunto de regras claras. Muitas vezes nem o próprio praticante tem autonomia de interferir na movimentação alheia, simplesmente pelo fato de se tratar de corpos diferentes com mobilidade motora diferente e adaptação aos obstáculos de forma diferente.Como você irá compreender que o calo aberto na mão de seu aluno dói, mas que aquela dor é uma dor que se ele compreender o significado ele é capaz de abstraí-la e voltar a treinar, se você mesmo nunca abriu esse mesmo calo? Como você pedirá para ele continuar e ser firme em seus objetivos se você nunca passou se quer próximo do pensamento que está tentando fazê-lo compreender? Não digo que é impossível termos ótimos instrutores que não são praticantes, mas eu acredito que qualquer praticante, de respeito, entenderá sempre infinitamente mais do que qualquer um desses mestres da teoria.

Da mesma maneira se encaixa os organizadores de grupos. Aqueles que estão a frente de projetos, palestras, os teóricos do Parkour, os donos das associações nacionais e os que batem no peito para apresentar seus eventos em prefeituras e órgãos públicos. Que maravilha que eles têm força e atitude para correr atrás disso tudo! Mas será que eles também não executam outro papel que deveria ser dos praticantes? Frequentemente vejo pessoas tomarem decisões, de sua cadeira acolchoada, que irão interferir diretamente nos treinos de quem estará se arrombando nas ruas.

Eu não consigo entender essa lógica a não ser que transformemos o Parkour em um órgão público ou na casa da mãe Joana, onde as pessoas podem meter a mão e fazer dele o que tiverem vontade. Como um organizador desse calibre irá manter vivo os valores que os praticantes acreditam, se eles muitas vezes não sabem quais são eles? Como um organizador desse calibre tomara a decisão de plantar uma barra no chão, sendo que não é ele quem irá colocar a mão nela todos os dias? Como um organizador desse calibre poderá entender o que de fato é importante para aqueles que executam a prática todos os dias nas ruas, se eles mesmos não estão nessas ruas? Eles não sentem a rua. Eles não sentem os treinos. E eles não respiram o espírito que o praticante respira.

Existem características que eu desenvolvi com a prática do Parkour que eu não consigo expressar em palavras. Eu tento, mas elas não são fieis ao sentimento. Quando eu encontro um praticante, treino ao seu lado, ele entende isso tudo sem que precisemos falar uma única palavra. Ele vive meus dilemas e as minhas angústias. Ele passa pelos mesmos perigos e se alegram com as mesmas pequenas vitórias.

Um organizador do Parkour, em qualquer setor que seja, sem o coração de um praticante de Parkour, é uma arma apontada ao acaso e que pode contribuir com um bem enorme para a atividade (uma vez que os próprios praticantes muitas vezes não contribuem com nada, não querem saber de nada, e não passam de mortos-vivos fingindo que adquiriram o controle remoto de suas vidas), mas eles também podem ser a depredação de nossa atividade, pois eles não sentem o que sentimos, não sofrem o que sofremos e não entendem e nem compreenderão jamais o que de fato para nós é importante. Mas eles tomam nossas decisões. E as decisões do futuro de nossa atividade.

Eu não sei a solução para esse impasse. Quer dizer, eu sei, mas ela é utópica. Se tivesse o poder, eu gostaria de expulsar de todos os cargos políticos existentes no Parkour aquelas pessoas que não estão nas ruas enfrentando os muros. E em seu lugar eu colocaria os próprios praticantes no comando. Mas isso somente se eu pudesse ter certeza de que esses praticantes seriam os de coração e que aprenderam a edificar todo o seu mundo ao redor dos ensinamentos que aprenderam. Não os mortos-vivos!

A política é um fenômeno existente em todas as esferas da sociedade. Não é coisa de quem somente teoriza. Se você nunca parou para pensar sobre ela, você merece a vida que você tem e você não tem direito algum de reclamar quando as coisas não saírem da forma como você esperava. O que você fez para evitar um futuro que não te agrada? Você é um parasita que sobrevive em um mundo que não merece.

A primeira lição que um praticante de Parkour deveria aprender é a ser um guerreiro. A ser forte, a ter princípios e a lutar. Quando uma vez foi dito que “ O Parkour é uma arma camuflada” todo mundo achou a frase genial e saiu pregando aos 4 ventos. Um bando de espartanos do filme “300”! Mas poucos descobriram que essa é uma arma que espera em silêncio ser sacada para defender a própria atividade. Portanto, das duas uma: ou aprendemos agora a levantar nossas vozes em prol do que acreditamos, ou então vamos todos nos silenciar na vergonha de um destino que ajudamos a criar por omissão.

Se optássemos pela primeira opção, acho que teríamos um mundo melhor e um Parkour muito mais bonito do que já é.

(O artigo original pode ser encontrado AQUI)