Religião: “Culto prestado a divindade; Crença na existência de uma ou mais forças sobrenaturais; reverência às coisas sagradas; observância dos preceitos religiosos, etc.”.Obviamente que não estou subjugando a capacidade de ninguém (até porque Google está acessível para todos), mas vamos ao que interessa.

Começar esse texto com a definição da palavra religião já reduz meu trabalho no mínimo ao meio, mas, o que eu quero com isso?

Tenho visto com uma frequência assustadora pessoas influentes no cenário Parkurístico afirmando categoricamente (ou simplesmente insinuando) que Parkour é religião. Bem, para isso precisaríamos enquadrá-lo em uma série de itens pelos quais ele nem passa perto.

Comecemos do principio:

  1. Apesar dos aclamados esforços para a canonização do DeusVidBelle está longe dele ser beatificado ou coisa que o valha, isso se estivermos seguindo os padrões cristãos.
  2. Por mais exótica, libertadora e pessoal que a sua experiência com Parkour seja, ela não é sobrenatural
  3. O fato de o Parkour ter filosofia própria não o caracteriza como religião. Esse ponto em especial eu quero destrinchar.

As artes marciais têm filosofia própria e nem por isso são religião. Não é porque você “sacraliza” o seu treino que ele se torna uma religião. Por mais difícil que seja entender isso, o Parkour é uma prática corporal com conceitos filosóficos, quer você só siga os “preceitos” filosóficos, quer você só treine físico. Por mais enriquecedor e agente de mudança que ele seja isso não o tira da categoria de prática corporal. Seus conceitos filosóficos, sua expansão sócio-econômica-cultural são parte inerentes disso.

Ser honesto, altruísta, é dever de todo cidadão e não do tracer especificamente. Se nós pregamos isso é porque faz parte da nossa cultura micro, que faz parte da nossa cultura macro. Entendam cultura micro como cultura do Parkour e cultura macro como a cultura social na qual o Parkour está inserido. Então, no primeiro plano, somos tracers fazendo a coisa certa e no segundo somos cidadãos fazendo que a nossa sociedade chama de função de cidadão, nada mais.

Por mais que nos sintamos especiais porque treinamos, por mais que o Parkour tenha mudado as nossas vidas, não somos melhores nem mais especiais simplesmente por que enxergamos o mundo de outra forma.

Somos tão agentes de mudança quanto um ciclista que decide não poluir o meio em que vive; quanto uma dona de casa que recicla o seu lixo porque quer viver num lugar melhor e assim por diante.

Nós fazemos o que achamos certo, isso não é exclusividade da nossa prática. Fazer o que é certo é dever de todo e qualquer cidadão.

Agora vocês devem estar se perguntando o porquê de eu tomar tão fervorosamente a defesa disso.

Então, o primeiro ponto que eu faço questão de levantar é: A prática não foi criada com fins nem meios religiosos, ela nunca teve esse caráter, entretanto, a partir do momento em que ela é defendida como tal, ela cria uma segregação imediata. “Ou você faz o Parkour certo, ou você não vai para o céu”. Tenhamos todos muito cuidado com os nossos xiitismos, pois, se alguma religião estiver certa, estamos mais de 90% da população condenados. Afinal, para uma estar certa, outras terão que estar erradas.

Bem, é certo que para muitos eu devo estar elucubrando sore o óbvio, mas tomo a defesa da prática para que ela continue a ser o que sempre foi: Uma prática.

Tudo bem, a dificuldade de conceituar Parkour é notória, mas prestemos muita atenção, pois, apesar dessa dificuldade, existem conceitos que não são aplicáveis e que quando aplicados desconstroem completamente o sentido da prática.

Praticar Parkour de maneira “religiosa” é completamente diferente de praticar o parkour-religião.