Quando falamos de Parkour estamos acostumados a falar de obstáculos, não é mesmo? Falamos dos físicos: muros, corrimãos e árvores. Falamos dos mentais: medo, vergonha e desmotivação. E também falamos dos externos: Falta de locais para treino, recriminação das pessoas da rua e pressão familiar. Hoje não quero falar de nenhum deles.

Para mim, existe um obstáculo especial e gigantesco dentro do Parkour e que dificilmente eu vejo alguém levantar voz para comentar: a preguiça dos praticantes. Soa familiar?

Existe uma sombra de comodismo em cima de nossas cabeças que inclusive devia nos fazer questionar se o Parkour realmente trabalha para que a gente se torne uma pessoa mais ativa e menos ociosa.

Quando falo de preguiça dos praticantes eu não estou falando de preguiça para treinar. E eu também não estou falando que eles se movimentam devagar ou que não se esforçam para saltar mais longe numa precisão. Estou dizendo que o tracer normalmente é um passarinho-bebê com a boca pra cima esperando uma suculenta minhoca no bico.

Não precisamos ir tão longe nas metáforas. Sem levar na ofensiva, tome-se por exemplo:

Quando foi a última vez que você tentou ajudar a organizar algo em seu estado?

A camisa que você faz questão de usar, tem esforço seu na produção dela?

E na organização do encontro que teve recentemente em sua cidade, você fez o que?

E os iniciantes? Alguma vez já parou para ajudar algum?

Você pode já ter contribuído com tudo isso, mas sabia que muitos dos seus colegas não?

Se quiser armar uma arapuca para comprovar o que estou falando é bem simples: Avise na comunidade do seu estado que irá fazer um treino para gravação de um vídeo. E em outro momento, avise na mesma comunidade que precisam se reunir para apresentar um projeto na prefeitura. Compare os resultados.

Certa vez eu inclusive usei de má fé e menti dizendo que ia ter reportagem só pra que a galera aparecesse e eu tivesse ajuda num outro projeto…


Ainda lembro a cara de raiva de alguns.

Eu costumo dizer que na maioria das vezes o tracer é aquele amigo que não falta uma festa mas que nunca fica para ajudar a arrumar a casa: nem antes e nem depois. Ele faz questão de usar tudo que pode, mas sua contribuição para que a parada cresça é ZERO. E sabe ainda o que mais as vezes ele faz ? ELE RECLAMA! E não é pouco não…

Reclama que o evento não teve alojamento, que o preço da camisa tá caro, que não teve gringo, que a estrutura tava solta, que não apareceu no vídeo…

Infelizmente, a única vez que esse tipo de praticante se conecta com o “Ser forte para ser útil” é quando ele compartilha a frase numa tentativa patética de se exibir para os amiguinhos no facebook.

Os anos passam e esse é um dos pontos que parece que nunca muda: nossa falta de organização. O pior de tudo é que, em praticamente todos os estados, os praticantes se renovam de tempos em tempos. Então mesmo os que antes tomavam a frente, chega o momento em que tem coisas mais importantes para fazer ou não estão mais tão engajados com o Parkour. E é aí que a organização estadual se reduz a zero.

Você sabia que existem capitais do Brasil que o Parkour praticamente não existe mais? E que nessas mesmas capitais o Parkour um dia já foi bem forte? Pois é, meu amigo. Imagina que situação estranha será quando em pleno 2014 essa cidade acordar e tiver que se organizar inteiramente do zero…

Existem atividades que nasceram depois da nossa e que se encontram muito mais solidificadas e estruturadas. E o porquê disso? Trabalho. Trabalho em grupo. Trabalho de base. Trabalho de construção de iniciativas. Trabalho de edificação de valores. Trabalho de ensino. Trabalho de repasse. Trabalho de conscientização. Trabalho. Coisa que somos absurdamente carentes.

Jogar videogame é legal, mas e desarrumar tudo depois? Você é daqueles que larga o controle e diz “falou”?

Pode parecer um exagero, mas eu te desafio a procurar conhecer a quantidade de oportunidades, reconhecimento e melhora para a prática que deixamos anualmente de conseguir…

Essa postagem não é totalmente pessimista. Existe uma galera que abraça a causa do Parkour, paga com o suor de sua roupa e faz de tudo para que ele siga adiante, firme e forte, em sua cidade (e no país). Esses são heróis. Muitas vezes anônimos. Sem super site. Sem 2000 pessoas no facebook. Sem 300 vídeos.

Para esses eu tenho um conselho: se preciso, ajam sozinhos. Não aguardem apoio de uma comunidade local que muitas vezes não irá te dar e não deixem para trás uma iniciativa simplesmente porque outros não irão levantar da cadeira para te ajudar. Persevere.

Não estou dizendo para não buscar ajuda, longe disso! Mas que só se alie com aqueles que estiverem dispostos ao mesmo objetivo. É duro? É! Vai ser difícil? Vai! Você tem noção da quantidade de iniciativas que beneficiam a todos do país e que foi iniciada e concluída por somente uma única pessoa ou ela e mais um ou dois amigos? Imagina se fôssemos verdadeiramente um grupo…

Então, meu amigo, não se deixe desanimar. E esteja preparado para uma coisa: mesmo com toda sua boa vontade, as críticas obviamente virão. Quando isso acontecer, as receba de peito aberto, porque muitos dos seus críticos serão os de braços cruzados.