Existe algo muito difícil quando passamos a explorar uma nova atividade. Esta iniciativa pode ser um esporte, um novo curso na faculdade, uma nova carreira ou o Parkour. Quando chegamos, no dia 1, nos deparamos com outras pessoas que também estão compartilhando o mesmo caminho. A dificuldade é a forma como encaramos esta situação, normalmente pela estrutura regular da sociedade, que reconhece qualquer sistema como uma competição por sobrevivência (leia: destaque).

Afunilando o assunto para o nosso contexto, é natural praticantes passarem a se perceber como competidores: “Fulano faz tal coisa que eu não faço, fulano é melhor que eu”. Está lógica faz sentido se encaixarmos o Parkour na mentalidade que a sociedade busca. Mas na arte do deslocamento este raciocínio se faz equivocado e bastante prejudicial para o ecossistema como um todo.

Quando falamos sobre Parkour, nossa ideia é poder interagir com o ambiente, sendo capazes de sobreviver a situações extremas. Como Tracers, somos especialistas em fugir e sobreviver, é com esta ideia que vemos a evolução dos nossos treinos. Mas existe a ideia incorreta de que “somente os mais fortes sobrevivem”, e ela veio caminhando junto do conceito de evolução. Mas basta observar a nossa volta para entender que não são os mais fortes, mas os suficientemente fortes que sobrevivem. E aqui, “suficientemente” pode ser qualquer um ou ninguém. 

É necessário para o leitor observar o ponto de partida e o destino de cada um na jornada. Por não consideramos o Parkour uma competição e por termos uma motivação baseada na capacidade de sobreviver. Nosso parâmetro de comparação deve sempre o ponto onde começamos. Uma pessoa muito fraca que depois de 10 meses conseguiu saltar por um muro pela primeira vez, não pode ser considerada menos esforçada ou pior do que um ginasta que chegou ao Parkour depois de 10 anos treinando profissionalmente e em 3 meses já executa os mesmos movimentos que praticantes que estão na batalha há vários anos.

A força de um pode ser a dificuldade do outro, e todos tem muito o que avançar em seu próprio conjunto de habilidades. Mesmo que em muitos casos, as habilidades que precisam ser trabalhadas vão bem além dos saltos. Compaixão, Empatia e Altruísmo são traços que considero importantíssimos para um Tracer e são habilidades extremamente falhas, principalmente nos mais habilidosos.

Do ponto de vista da comunidade, esta comparação entre laranjas e maçãs afasta os praticantes, que temem ser julgados diante de outros praticantes. O resultado é a percepção de que o Parkour não é para qualquer um, afastando os que possuem um caminho diferente, simplesmente porque não conseguem fazer um monkey-precisão com side flip no final. Mas sem considerar que perdeu 20kg e faz 10 barras, número que antes era inimaginável.

parkour

Saindo pela tangente da competição

Existe um conceito que é aplicável a praticamente todas as situações da vida e no Parkour pode ser a chave mágica para evitar alguns transtornos.

Só nos tornamos vulneráveis a uma competição se nos dispormos a entrar nela. Eu só posso perder um campeonato que estou participando. Se procurarmos fazer as mesmas coisas, só porque todo mundo está fazendo, é bem possível que em pouco tempo alguém melhor vai aparecer e você já era, isso vai gerar frustração e tristeza.

Enquanto o nosso padrão de comparação for “O Outro”, nunca nos contentaremos com o que somos. Quando (se) eventualmente nos tornarmos melhor que aquele com quem competimos agora, outra pessoa ainda melhor vai surgir, gerar frustração e a busca infundada começa novamente.

Para contornar este instinto de competir, é preciso olhar para dentro e entender o que realmente somos e o que de fato estamos buscando. Lembrando que cada um busca algo diferente. Como exemplo imaginem eu e o Duddu que também escreve por aqui.

Se eu for a um treino com o Duddu e ele estiver fazendo um salto de precisão com 12 pés e eu tentar fazer o mesmo salto que ele, não vou conseguir. Eu sei disso, conheço meu impulso. Se eu insistir ao longo do dia todo, não vou conseguir uma única vez. Vou apenas criar um forte espirito de insatisfação. Esta frustração é cumulativa, aumentando toda vez que eu não conseguir executar algo. Em pouco tempo vou estar tão frustrado que não sentirei mais vontade de treinar. “Nunca consigo fazer nada que o Duddu consegue, porque continuar tentando?”

Quando o que de fato eu deveria estar buscando é meu progresso pessoal. Observando saltos em distâncias que eu consigo e trabalhar para aumentar aos poucos.

Saber a hora de se afastar do treino geral e buscar um objetivo que caiba em você, sendo realista, sem dramas, é a maior estratégia.

Recentemente treinei com um amigo. Ele treina a pouco menos tempo que eu, mas que possui uma capacidade infinitas vezes maior que a minha. Toda esta reflexão surgiu deste treino, onde tive que por diversas vezes engolir o meu próprio ego e dizer “Isso eu não consigo, não confio na distância do meu salto.”. Modificamos os obstáculos e as dinâmicas diversas vezes para meu treino prosseguir. Ao final do treino ele me ajudou em dificuldades, eu saí incrivelmente satisfeito e com ânimo para treinar mais e melhor.

Este meu amigo também teve um papel importantíssimo, entendeu minhas aflições e se dispôs a me acompanhar. Por diversas vezes vamos observar o comportamento oposto, onde a pessoa vai desafiar, fazer chacotas e brincadeiras. “Tenta ai! Vai amarelar?”. É importante lembrar que a mente competitiva só pode ser saciada se existir a competição. A partir do momento que um nega a competição, ele vem a todo custo tentar te trazer de volta.

O “melhor” só é assim, se existir alguém que considere pior tentando se equiparar. Seja qual for a situação, observe se naquele momento você não é o leão tentando acompanhar um peixe. Saiba entender qual é seu momento e se respeitar. Obviamente é interessante tentar coisas novas e maiores, mas desde que façamos isso sem a pressão do ego. Caso contrário vamos acabar machucados e frustrados.