Recentemente o tracer francês Naïm L’Inconsolable divulgou um vídeo que rapidamente se tornou compartilhado entre as páginas de todo Brasil e mundo.

“Parkour, imaginatively“ é uma coletânea de várias cenas do último mês de outubro onde os praticantes do sul da França (entre eles o conhecido Quentin – Parkour Literally) se reuniram para treinar de forma descontraída com uma galera da Alemanha.

Acontece que o Naïm é um cara muito sagaz e daqueles que não perde uma só oportunidade para cutucar feridas. E, dessa vez, o cara fez isso de uma maneira tão brilhante que quase ninguém notou.

O vídeo é sim muito bom: trilha sonora bem escolhida, edição muito legal e criatividade para dar e vender. Mas o que poucas pessoas compreenderam é que não se trata de um vídeo bonitinho em busca de likes e de admiração. A intenção é compor uma crítica tão bem fundamentada que encontrou terreno fácil para germinar:

O que mais impressiona com a divulgação do vídeo é que os praticantes se impressionam com o que, ao menos eles, não deveriam se impressionar.

Parkour entrou numa constante tão absurda e viciada na tríade precisão-kong-passada, que hoje fica difícil explicar para alguém o conceito de liberdade na movimentação e de que não existe uma forma “mais correta” para se fazer nada. Estamos tão acostumados a criar regras de como a outra pessoa deve se mover, estamos tão acostumados a apontar o dedo para o nosso parceiro de treino e dizer “você fez roubando”, que acabamos por nos tornar pessoas burras dentro de nossa própria criação.

Muitos adoram bater no peito que Parkour trouxe liberdade, mas não percebem que ainda continuam prisioneiros de uma mente infértil.

Ouço com bastante frequência críticas severas contra pessoas que não são praticantes e que, por falta de informação, fazem alguma comparação de Parkour com o Skate. Ora essa, essas pessoas estão corretas! Do contrário eu gostaria que algum crítico me respondesse: Qual é a diferença (além de um pedaço de madeira com rodas) entre dizer que vai “mandar” um Royal Flip ou um Kong-Precisão?

Acompanhei comentários e opiniões de diversas pessoas dentro do Parkour e me impressionei ao perceber que elas não entenderam a mensagem por trás do vídeo. A maioria se limitou à opinião de que “Nossa, como eles são criativos!” quando na verdade eles deveriam estar se perguntando “Nossa, porque eu não sou criativo?”.

O que “Imaginatively” traz verdadeiramente de novo e de forma bastante agressiva são dois aspectos peculiares:

- A real observação do meio em que se encontra

Recentemente li uma passagem em um dos livros de Miyamoto Musashi que diz: “Observe uma coisa e dela compreenda 10 mil coisas.”.

O que vemos as pessoas fazerem no vídeo é exatamente aquilo que todos nós deveríamos fazer em todos os treinos: não enxergar o óbvio. Infelizmente muitos praticantes de Parkour continuam com a mesma visão minimalista que possuem as pessoas comuns a sua volta.

Em um exemplo claro: Um corrimão qualquer.

Visão de uma pessoa comum: Serve para eu segurar e ter mais apoio ou então para amarrar uma bicicleta.

Visão da maioria dos praticantes: Monkey e Kong. Pra sempre.

Visão dos caras no vídeo: Posso passar por cima, posso passar por baixo, posso colocar só os pés, posso colocar só as mãos, posso andar em cima dele, posso ignorá-lo e saltar direto, posso me pendurar…

Da próxima vez que você olhar para um muro, não enxergue-o como somente mais um pra correr e subir. Enxergue um bloco gigante de cimento. Enxergue o tijolo que esta faltando nele e que você poderá enfiar a mão. Enxergue se ele tem alguma inclinação e a dificuldade que isso pode trazer. Enxergue que pode existir um cano em algum lugar e que servirá como apoio. Enxergue, sobretudo, que não existe por aí uma cópia desse mesmo muro. Ele é único. E, como bom praticante, você deve ser capaz de entender o porquê.

E vamos agora para a segunda coisa importantíssima que esse vídeo aborda:

- A destruição das manobras

O que de melhor esses meninos fazem o tempo inteiro é transformar uma situação corriqueira nos treinos em situações singulares e especiais. Isso é feita de maneira tão exemplar que cada movimentação no vídeo deixa de corresponder a uma forma padrão.

Quando for reassistir o vídeo (ou ver pela primeira vez) tente ser um narrador do que está se passando. Tente “dar nomes” ao que os caras estão fazendo. Eu não consegui e muito provavelmente você também não conseguirá. Sabe porquê? Porque são movimentações únicas e criadas NAQUELE momento para a se ultrapassar AQUELE obstáculo.  Você vai treinar a sua vida inteira e ainda assim nunca achar um lugar idêntico para se fazer o que acabou de assistir. E é bem capaz deles mesmos nunca mais precisarem fazer aquilo que fizeram. Não é genial? E é esse o maior ganho nisso tudo! Evocar movimentações anônimas: que não tem forma, que não tem nome e que não serão copiadas.

Se você agora esta pensando “Meu Deus, eu treinei a minha vida toda feito um robô.” não se desespere!

Nunca é tarde para aprender. Basta somente que da próxima vez que sair para treinar, você esqueça sem querer aquela sua listinha que tem o nome de todos os movimentos anotados. E então, meu amigo, agora sim se prepare para conhecer um mundo inteiramente novo.