Há aproximadamente dois anos, vou pelo menos uma vez por mês a um lugar onde sempre treino perto de casa. Desde que diminui o ritmo de treinos, perdi a coragem de fazer um Saut de Bras/Cat leap que sempre fiz com muita facilidade. Inclusive quando “descobrimos” este salto, eu fui o primeiro a fazer com muita confiança e sangue no olho.

Nesses dois últimos anos eu praticamente perdi a coragem para fazer esse salto. O salto era de um muro para o outro, no mesmo nível, nada de complicado, nada de difícil, mas eu simplesmente não me sentia mais apto a fazer.

Quando parava para analisar o salto, eu via minha mão escorregando do outro lado. Conseguia até sentir os cortes nos dedos causados pelo muro chapiscado. Imaginava que era pesado demais para aquela parede e que provavelmente o muro ia ceder quando eu o segurasse. Eu pendurava, balançava e testava tudo. Tentava me assegurar de que era seguro e de que não me machucaria.  Pensava em todas as possibilidades de falha, tudo que poderia dar errado. Eu estava com medo.

Tentei ganhar coragem fazendo de uma lateral, poucos centímetros mais perto do que o salto que eu verdadeiramente queria fazer. Mas nada disso parecia funcionar. Passei quase dois anos com esse medo e pensando que não tinha motivos para fazer o salto, não valia o risco.

Em um domingo, fui ao parque com um amigo e acabamos treinando alguns cat leaps em outro ponto. Depois fomos para o salto que eu tinha tanto medo de fazer. Ficamos por lá pensando e conversando. Resolvi então colocar a meta de que faria aquele salto de novo em um mês. Voltaria aos meus treinos regulares, recuperaria minha confiança e faria. Ele riu de mim e disse “achei que faria hoje”.

Ficamos cerca de 30 minutos discutindo sobre o salto e os motivos que eu achava que não conseguiria mais fazê-lo. Depois de muito papo, meu amigo decidiu que tentaria. Fiquei feliz por ele tomar essa iniciativa e disse que, se ele tentasse, eu tentaria também. Eu não achava que ele iria tentar!

Fui lá para baixo dar assistência caso fosse necessário. Ficamos lá um bom tempo e eu já estava bem confiante de que ele não tentaria. Eu teria que ir pra casa engolindo minha vergonha e meu medo. Eu estava virando um bundão. Nesse momento, eu não estava racionalizando o motivo de não fazer, eu só achava que iria me machucar.

Quando menos esperava, o Wend saltou e a mão dele não fixou na parede e ele deslizou. Achei que ele não fosse tentar de novo, mas ele subiu no muro, pensou por mais alguns minutos e saltou. Dessa vez ele conseguiu. Ficou brincando comigo e me lembrou que agora eu teria que cumprir com o combinado.

Subi para avaliar a possibilidade, fiquei rindo de nervoso falando que não faria. Perguntei até se eu tinha como pagar o combinado de outra forma. Fiz todas essas brincadeiras de quando não temos culhões para fazer o que prometemos. Fiz alguns testes, pulei da lateral, desci e subi. Testei o muro e fiquei parado olhando para ele por um bom tempo. Até que parei de rir.

Parei para pensar de verdade no salto. Em como eu já havia feito tantos saltos antes e agora estava com medo. Pensei em toda atitude que sempre tive, em toda coragem e sangue no olho.  Pensei em todos os treinos que fiz nesses oito anos e na capacidade física que tenho. Pensei em todo o preparo e em quantas coisas mais difíceis eu já tinha feito. Parei para pensar que se eu desse as costas e fosse embora, eu não conseguiria lidar novamente comigo mesmo.  Mais difícil do que lidar com os amigos fazendo brincadeiras, com um ralado ou uma queda, é a vergonha de não ter nem tentado.

Quando percebi, estava novamente decidido a fazer o salto. Só precisava me importar com algumas poucas coisas e era isso. Sequei minhas mãos que já estavam suadas na calça e tirei a poeira do tênis.

Enquanto respirava, olhava fixamente para onde minhas mãos deveriam pegar. O suor já pingava e meu coração batia acelerado. De repente, como de forma inesperada, eu olhei para o outro lado e vi minhas mãos chegando. Então eu pulei.

Cheguei do outro lado de forma firme. Os pés cravaram no muro e as mãos também. E em menos de um segundo, já estava sentado no muro e sorrindo com a mente vazia e o coração limpo. Um sentimento de emoção e conquista que eu não me proporcionava através do Parkour há muito tempo. Nesses últimos dois anos que vinha treinando esporadicamente só para não perder algumas habilidades, eu tinha esquecido como eu podia me desafiar e me sentir bem com o Parkour.

O que me fez pular foi não conseguir lidar com a vergonha, com o meu ego, comigo mesmo. Saber que eu havia sido vencido por algo que não existe e que estava somente em minha cabeça. Ao contrário de uma luta contra um oponente onde você da à cara a tapa, bate e apanha.  Perder para você mesmo é algo que eu realmente não soube e não sei lidar. Isso é o que me empurra. É o que me faz continuar.

Conforme ficamos mais velhos o nosso medo aumenta. Cada erro pode significar uma perda maior, por exemplo: um braço quebrado representa faltar no trabalho e o risco de perder o emprego. Qualquer errinho pode representar todo seu mundo indo por água abaixo.

O que me faz pular é a confiança nas minhas habilidades e no meu treino. A vontade de mostrar pra mim mesmo que sou capaz e que eu posso.

Pessoas têm motivos diferentes para fazer as coisas. Quando você está lá no alto daquele muro, pronto para fazer um salto perigoso que nunca fez antes, o que te motiva? O que faz você pular? Descubra.