Eu acredito que poderia transformar este post em algo bem mais especifico, e talvez faça isso depois. Vim pensando na quantidade de habilidades que adquiri a partir do Parkour e que em nenhuma outra disciplina eu vi acontecer, algo que está presente no mindset(1) do Parkour, e que faz com que toda nossa experiência seja muito maior do que simplesmente atravessar um percurso de um ponto a outro, maior do que subir muros, maior do que tudo o que normalmente buscamos dentro do parkour, e isso é o que deveríamos buscar verdadeiramente.

Parkour é uma atividade apaixonante, poucas pessoas que se aventuram em um treino de Parkour (eu falo TREINO, de verdade sabe?) não entram de cabeça buscando o máximo de informação possível, e talvez todas essas habilidades façam parte do pacote inicial que encanta tanto os novatos, e que passam despercebidas pela falta de abordagem relativa a isso, tudo isso que vou falar, já vi alguém citando, mas resolvi fazer minha própria síntese.

existem coisas muito importantes: o toque, a sensibilidade, e o condicionamento físico

Stephane Vigroux

No Parkour essa sensação é notável desde o inicio, quando se aprende os primeiros movimentos, e começamos a fazer os primeiros saltos, rapidamente começamos a associar o mundo exterior com essa liberdade de se movimentar pelas estruturas disponíveis na rua, pelo que antes passávamos e não percebíamos. Tudo isso gera um estado constante de observação, de percepção. Vemos coisas que o resto do mundo normalmente ignora, esquece, deixa pra trás.

Lembro claramente das minhas primeiras semanas de parkour, que deixei de andar olhando pra frente e comecei a olhar tudo ao meu redor, o topo dos prédios, imaginar a distancia que teria de uma ponta a outra, quanto eu precisaria treinar para conseguir, qual seria a sensação de fazer cada um dos saltos que eu via. Procurava a todo instante pontos que pudessem servir de obstáculo, situações que pudessem exigir algum tipo de habilidade. E este relato se repete a cada novo praticante que vejo começando no Parkour. Nós vemos uma cidade diferente, da forma que um cidadão comum vê, e se não vê, ainda não sabe o que é o Parkour.

Com o passar do tempo esta forma de procurar obstáculos ao seu redor é substituído por uma noção de emergência, uma forma de imaginar sempre “por onde eu iria sair se acontecesse alguma coisa aqui?”, então você acaba se tornando mais atento para tudo que está ao seu redor a todo momento, e normalmente com um bom plano de fuga para se alguma situação ímpar acontecer. É algo natural, e normalmente é feito como uma brincadeira mental, formulando planos, e estratégias em sua própria ficção mental.

Outra percepção que adquirimos é uma noção bem particular de distância, sabemos com um simples olhar se conseguimos ou não alcançar algum ponto. Sabemos com o olhar as distâncias medidas com nossos próprios pés, “Daqui até aquela parede tem 9 pés”, não adianta, a gente sempre acerta. Esse tipo de noção foi amplificado quando paramos de medir, associamos essa necessidade com a possibilidade de uma emergência, e passamos a simplesmente olhar e saber. Tracers são máquinas de cálculos visuais.

O toque e a sensibilidade

Existe uma habilidade adquirida que é fantástica, e que fui apenas perceber quando um amigo me disse para treinar isso ativamente e não simplesmente deixar acontecer. A capacidade de saber exatamente a textura, a consistência, a capacidade de aderência, e a integridade de uma superfície sem nunca ter tocado.

Sabemos que muros chapiscados aderem demais, e que se chegarmos com muita força provavelmente vamos machucar os pés. Muros brancos pintados de cal aparentemente são aderentes, mas quando os pés tocam a parede deslizam rapidamente para baixo. Sabemos que alguns tipos de arvores tem galhos finos porém super resistentes, e que alguns galhos aparentam bastante rigidez mas quebram facilmente com qualquer força sobre ele. Necessitamos o tempo todo de uma sensibilidade a mais do que a comum para não termos surpresa durante os saltos, e que para nosso objetivo maior que é estar preparado para situações de emergência, saber onde pisamos é uma chave de ouro.

No começo fazemos isso naturalmente, e com a experiência aprendemos que determinadas superfícies são mais escorregadias, ou mais aderentes. Sabemos que esse tipo de Percepção nos é necessário, e que pode nos manter longe de acidentes. Mas uma vez que treinado, esse tipo de habilidade pode ser ampliada de uma forma fantástica, tocar as superfícies, sentir e absorver esses padrões deve se tornar um hábito, até tudo isso ficar automático, e você simplesmente saber se pode fazer ou não um salto para determinado lugar apenas com a análise visual, sabendo se vai escorregar demais, ou aderir demais.

Brutalidade e Força

Como sempre faço questão de dizer, poucas pessoas são tão fortes como os tracers. Temos algum distúrbio gerado pela forma com que nos desenvolvemos, e que faz nosso referencial de força, esforço, exercício físico e dedicação serem um pouco deturpadas. É muito comum tracers fazerem séries longas de exercício que parecem mentira para as pessoas de fora, quem não está nesse meio se assusta com o que fazemos.

Tracers buscam sempre alcançar o máximo de força possível, e todo mundo dentro do parkour acha que pode ser cada vez mais forte, e fazer cada vez mais coisas, ou você conhece muito mais gente que se junta com os amigos num domingo para fazer 500 flexões? ou 100 repetições de algum movimento? carregar o amigo escada acima, correr descalço, fazer barras com 10/20 kg extra? Tudo isso pelo simples prazer de fazer, de uma forma até sádica, tracers tem prazer no suor, e no esforço. Todo mundo se espanta com os feitos executados pelos tracers, e esse espírito é o ponto máximo do Parkour para mim. Buscar ser o mais forte possível, sempre.

Temos uma capacidade de ir atrás do que queremos invejável, acreditamos em um objetivo e trabalhamos arduamente pelo menos objetivo por meses, simplesmente para fazer um único movimento, ou um obstáculo especifico. Não viramos as costas e vamos embora, permanecemos fazendo 10, 20, 100, 300, 1000 repetições, não simplesmente até conseguir, mas até fazer da forma mais limpa e perfeita possível, o importante não é só acertar, mas tornar tão natural que seja impossível errar.

O que devemos buscar

Tracers em sua maioria são formados na rua, no asfalto, com as mãos sangrando pelos calos arrancados no muro, com muito suor e sujeira. Aprendemos a ser resistentes e menos frescos, saímos da nossa zona de conforto, das roupas limpas, da calçada e da escada, e passamos a enxergar um mundo bem mais completo e cheio de aventuras, descobrimos uma nova dimensão dentro do mundo aonde sempre vivemos, e que agora nos fascina por sua total complexidade.

Falamos muito em um Parkour simples e direto, buscando eficiência e e agilidade, mas tudo isso gera um reflexo em nossas vidas pessoais que sabendo como buscar, compartilhando, podemos aproveitar muito mais. Devemos ficar atento para os aspectos secundários do Parkour, e aos benefícios extras que conseguimos durante os treinos. Existem vários outros além dos que citei, lembra de algum? compartilhe!

(1) Mindset = algo como a forma de pensar, a mentalidade envolvida.

 

(2) Awareness: Serve para descrever um estado de consciência, de percepção, da capacidade de perceber as coisas ao seu redor.