Daniel Ilabaca é, sem dúvidas, um dos gênios dentro do Parkour e, se brincar, um dos caras que mais inspirou gerações de puladores. Com ele não tem meio termo, não! O bicho é exemplo daquilo que fala e quando você o vê se movimentar, tudo parece fazer sentido e tudo parece ser tranquilamente alcançável e fácil de se reproduzir. Não se deixem enganar. Só parece. Inegavelmente ele treinou muito para chegar aonde chegou. Com análise de poucas cenas você já chega à conclusão de que muito suor e sacrifícios foram feitos para se adquirir aquele nível de controle e concentração. Minha missão de hoje, no entanto, é trabalhar em cima do filósofo por trás do mito.

Tomei a liberdade de pegar o seu vídeo-documentário mais famoso e analisar trechos delicados com vocês. “Choose Not To Fall” tem como protagonista Daniel Ilabaca. As passagens que você lerá a seguir foram repetidas milhares de vezes, por milhares no mundo todo. O problema é que muitas vezes isso aconteceu de forma descontextualizada e sem real questionamento.

O motivo que me levou a produzir esse texto foi puramente matemático:

Ilabaca é dono de uma oratória ruim e de complicado entendimento + Tracers normalmente são péssimos em interpretação de texto = Um ensaio sobre a Cegueira.

Para isso vou extrair algumas passagens do documentário e interpretá-las sob a visão de uma pessoa qualquer que não o conhece. Obviamente, ela pode muitas vezes não ser a resposta certeira para o que ele quis dizer, mas eu espero que ajude a plantar ao menos uma crítica sobre o que é dito e que isso reflita em sua interpretação pessoal. Se você tiver opinião diferente, não se acanhe em falar. O espaço é aberto e conhecimento compartilhado é um bem feito ao mundo. Vamos lá!

¹A aventura é não saber o que vai acontecer a seguir. Entende? É aceitar que você não tem controle sobre o futuro. Só ter o controle do momento, aproveitar o momento ao máximo. Então cada passo que dou não é pensado antecipadamente. ²Eu só coloco meu corpo em posição e me lanço. Quando se pensa antecipadamente, isso te previne de estar nesse momento, e quando você está nesse momento, é quando você é capaz de fazer coisas que outras pessoas não conseguem entender.”

INTERPRETAÇÃO COM CÉREBRO:

¹Ilabaca começa o vídeo apelando para um dos conceitos poéticos mais antigos da humanidade: Carpe Diem. Ou seja, “Viva o Momento”. “Aproveite o dia”. Essa ideia de saborear o hoje já foi explorada das mais diferentes maneiras: em filmes, músicas, poemas e festas. Mas eu acho que uma das melhores formas de sentir isso é da nossa forma: se movimentando livremente – você, o momento e o obstáculo. Ilabaca compreende isso e muito bem! Ele diz que você não pode ter controle sobre o futuro, mas você pode ter controle sobre o seu presente. Obviamente, ele quer que você entenda que esse “controle” vem de seus treinos, de sua vivência diária e do quanto você leva seus treinos a sério.

²Quando diz que “coloca o corpo em posição e se lança”, ele traduz o momento de êxtase do tracer: confiar na habilidade, ter convicção de todos os elementos que poderiam te fazer errar e ainda assim executar perfeitamente. Sair da inércia e partir para a ação. Só quem treina, de fato, entende o turbilhão interno que é isso.

INTERPRETAÇÃO SEM CÉREBRO:

Pelo que entendi então o Ilabaca não pensa muito antes de fazer as coisas e se deixa levar pela vibe do momento. Ele sobe lá nas coisas, faz cada coisa incrível e longe, então como el acerta, ele está certo. É mesmo, quantas vezes eu já me travei em cima de um lugar e fiquei cheio de frescurinha? Era só ter confiado e mandado, afinal de contas, eu posso não ter outra chance. E se eu morrer amanhã? Ilabaca tá é certo. Não posso ter medo e nem deixar pra depois! Tem é que ir lá e fazer.

Ou seja, o que deveria ser uma declaração de consciência corporal e de colocar a prova, no momento oportuno, aquilo que se aprendeu, se torna na verdade uma justificativa para ganhar coragem para executar movimentações que muitas vezes a pessoa não tem capacidade ainda de realizar com segurança. E mesmo que não, essa ação gera uma falta de respeito consigo mesmo, seu corpo, com o seu treinamento e com o próprio Ilabaca que teve as palavras distorcidas.

3pass

 

¹É só que no mundo em geral, a imaginação e a criatividade foram perdidas. Elas foram tiradas, arrancadas de nós através da história e foram lentamente devolvidas ao mundo em que vivemos através de jogos de computador e coisas assim. E é por isso que as crianças estão tão viciadas em jogos. Porque é uma maneira de conseguir, um jeito fácil de ter sucesso. ²Então um monte de gente fica olhando e não percebe que, sabe, que estou usando meu corpo para na verdade ir contra, obviamente, essa barreira física desse mundo.”

INTERPRETAÇÃO COM CÉREBRO:

¹Agora o Ilabaca pegou pesado. Ele fez uma crítica ao sistema em que nós estamos acostumados a viver: esse mundo onde o que já é uma comodidade cada dia torna-se mais cômodo. E pior ainda, ele diz que a criatividade de todos foi roubada por conta dessas ferramentas que nós mesmos criamos.

²A forma dele se movimentar, a arte que ele cria quando se move entre os obstáculos e o meio urbano é única. E ele usa isso como argumento para demonstrar o quanto ele ainda consegue ser imaginativo e criativo em um mundo tão igual e tão comum como o nosso. Ele quer dizer que essa criatividade que ele tem, de se movimentar por conta própria e ser dono do seu movimento, é uma maneira de nadar contra essa corrente de ideias pré-fabricadas e criar sua própria realidade (e sua maneira particular de se comunicar com o mundo).

INTERPRETAÇÃO SEM CÉREBRO:

Disso tudo eu já sabia e blá blá blá, mó chatice essa parte de conceitos, eu quero é treinar… Mas não é que o cara é bom mesmo? Fez 3 passadas, numa altura da porra e ainda terminou com um front 180! Amanhã vou lá no pico e tem um lugar que eu acho que dá pra tentar. Já tenho esse e aquele outro vault novo que vi no vídeo do Shade. Vou fazer os dois.

Ou seja, Ilabaca fala de originalidade, criação e expressão corporal como liberdade da manipulação e o praticante ignora isso tudo e prefere copiar movimentações. A crítica social? Normalmente é desconsiderada.

Choose-Not-To-Fall222

¹A confiança não se conquista com o tempo de prática. ²É tipo, a confiança se conquista quando você se dá conta que é você quem escolhe o seu próprio caminho. ³Você escolhe cair, você escolhe não cair. É só a maneira como encaro a vida que me permite ser mais livre.”

INTERPRETAÇÃO COM CÉREBRO:

¹Nessa parte agora a gente vai ter um pouco de trabalho para entender. Eu diria que o fato dele não respirar durante as falas fez com que o oxigênio não chegasse até o cérebro. Só assim para justificar tamanha baboseira. Quem nunca se viu dizer que confiança não se conquista com tempo de prática? Vai ver os médicos fazem residência de cinco anos em hospitais porque acham engraçado e não para treinar e começar a confiar na profissão. Mas beleza, segue a vida. Todo mundo fala merda de vez em quando.

²Em seguida, parece que ele percebe a besteira que falou e se complica para tentar se explicar. A situação melhora um pouco quando ele associa confiança com escolher o próprio caminho. Afinal de contas, quem sabe aonde quer chegar adquire um propósito. E quem tem um propósito vai em busca de sua conquista. Esse processo, obviamente gera confiança a cada etapa vencida. É um pensamento extenso e complexo e que ele cuspiu pra fora de forma bastante reduzida. Mas continuemos sem estresse.

³Quer dizer, continuaríamos sem estresse se ele não viesse com a asneira do bolo: “Você escolhe cair, você escolhe não cair!”. Que demônios ele queria dizer com isso? Vamos tentar forçar a barra um pouco e entender: A todo tempo ele guia o discurso em cima das palavras “escolha, confiança, momento”. Então essa frase, obviamente esta conectada com o resto do texto. Ou seja, sozinha a frase é uma bosta porque ninguém sensato e em seu juízo normal escolhe cair. O que Ilabaca quer nos dizer é que quando você não se prepara, quando você não toma as rédeas de sua movimentação e quando você não domina o meio que te cerca e o seu próprio corpo, você escolhe cair. Você INCONSCIENTEMENTE escolheu a queda.

INTERPRETAÇÃO SEM CÉREBRO:

Então, de acordo com o que ele disse não tem problema nenhum eu ter pouco tempo de treino? Se confiança não se conquista com tempo de prática, então eu já estou pronto pra fazer. Basta confiar e jogar. Se eu confio, logo jogo. Eu escolhi meu caminho e eu escolhi não cair. Não tem erro.

Desnecessário repetir o óbvio.

ilabom

“O parkour é uma ferramenta que pode ser usada para tantas coisas boas. É para as pessoas se darem conta disso antes que seja tarde demais, até o ponto em que o Parkour vire uma coisa completamente física, vire apenas uma competição. Ou acabe se tratando de ganhar dinheiro e a mensagem seja perdida.”

Essa parte daqui eu não irei fazer os comentários não. Eu somente a reproduzi porque acho bastante curioso perceber que várias das pessoas que vejo comentar o quanto esse vídeo é incrível e que o veneram como uma bíblia, ignoram completamente essa passagem. Eu estou, inclusive, propenso a acreditar que o vídeo deles tem algum defeito e que nessa parte a tela fica escura e sem áudio. Porque não é possível… Eu vejo que muitas delas são as mesmas pessoas que contribuem para que o Parkour se torne algo meramente físico e competitivo. São essas as mesmas pessoas que não ligam o mínimo para a mensagem e tão pouco se lixando se ela esta sendo perdida ou não.

Ou seja, a palavra do Ilabaca só funciona quando ela serve de apoio para alimentar o ego inflado por radicalismo. O resto pode ser ignorado, né?

crazyilabaca

“¹ Se você tem medo de cair, você cai porque tem medo! ² Tudo é uma escolha! ³ Não é nada, mas é tudo!”

E pra finalizar, ¹papel, ²penico e ³cocô. Um combo de 3 frases célebres: uma mais sem pé de cabeça que a outra. Eu quero acreditar que cada uma delas foi falada dentro de um contexto que faça sentido e que o cara que fez a edição foi tentar fazer graça e as isolou. Ou seja, o significado ficou ó… uma bosta.

1 – Se eu caio, mesmo fazendo algo com medo, não quer dizer que eu escolhi cair. Uma fatalidade simplesmente pode ter acontecido.
2 – E quando eu tenho medo de cair e ainda assim acerto o movimento e eu não caio? Eu bugo a Matrix?
3 – Falando nisso, quem é o imbecil que escolhe cair? Só quem tava no topo do WTC, né?
4 – Tudo é uma escolha? Ok. Vou mandar um bilhete para os famintos da África.
5 –Não é nada, mas é tudo? Não é NADA coerente e é TUDO uma besteira, você quer dizer, né?

O texto não é um ataque ao Ilabaca. Ele é um gênio da movimentação e que, propositadamente ou não, acabou se tornando um produto. O problema é que praticante de Parkour adora uma frase de impacto. E muitas vezes ele não para nem 10 segundos para tentar entender o que ele esta reproduzindo. Acredito que isso está errado e que nós, que justamente deveríamos ter um senso crítico mais aflorado, estamos sendo um ótimo exemplo de subordinados e alienados. A diferença de nós para outros sistemas de alienação é que nós mesmos criamos o nosso monstro (lembrou daquela parte lá de cima que o próprio Ilabaca falou?).

Espero que essa postagem não tenha agredido nenhum fã do cara e espero que o objetivo de “se fazer pensar” tenha sido alcançado. Discordem a vontade, mas reflitam sobre o assunto antes. Esse é o maior ganho.

Afinal, se tudo é uma escolha, então escolha ser sensato, inteligente e usar o bom senso.