Tenho muito orgulho de dizer que estive presente na primeira edição deste, que pode ser considerado um divisor de águas para a comunidade brasileira de Parkour.

Tudo saiu tão maior, mais organizado e sério do que eu esperava, que ainda estou assimilando tudo o que aconteceu por ali. Talvez por ter dormido na academia, com pessoas discutindo até altas horas da madrugada sobre todos os pontos, me faça ter uma visão amplificada do impacto deste congresso. Essa é a visão que vou tentar transmitir aqui.

Pré-Evento

O primeiro dia começou cedo para os que estavam hospedados na Tracer, ás 7 da manhã estávamos todos de pé, nos arrumando e preparando para o evento. Os que iriam palestrar, reviam seus textos repetidas vezes, buscando organizar suas ideias da melhor forma, para que não sobrasse dúvidas do que seria passado.

Esta era uma experiência nova para todos, um evento diferente, com uma energia desconhecida.

Eu, fingindo que sei do que estou falando.

É a primeira vez que alguém organiza um evento teórico sobre Parkour em nosso país e, se normalmente os eventos práticos podem ficar vazios, o que se dirá de um evento onde todos ficariam sentados por quase 8 horas, apenas ouvindo pessoas falarem. Mas mesmo assim estávamos ali, com duas vans abarrotadas de gente seguindo em direção a USP Leste, que para nossa surpresa, estava lotada.

O evento conseguiu preencher o auditório de uma forma que eu nunca poderia esperar, unindo os mais variados perfis em um único propósito.

Problemas e soluções

Depois de cumprimentar conhecidos e velhos grandes amigos, todos nos instalamos no primeiro auditório, isso, primeiro.

Parece que por alguma lei oculta do universo, para algo bom acontecer, uma força oposta se instala para gerar o caos.

Lá não foi diferente.

Pouco antes da primeira palestra, a minha, o projetor queimou, criando uma certa tensão inicial. Jefferson, que daria a palestra sobre Parkour Tático, foi cancelado em cima da hora, aumentando ainda mais a sensação de perda logo no inicio do evento.

Uma forma de medir o sucesso e a organização de uma equipe, não é o pelo sucesso absoluto, mas pela capacidade de ação quando problemas aparecem, e nisso, o evento deu um show. Fomos transferidos rapidamente para outro auditório, não tão preparado quanto o primeiro, mas que acabou se ajustando perfeitamente às nossas necessidades. A palestra do Jefferson foi sentida, mas a organização esticou alguns tempos, permitindo que conteúdo fosse substituído por conteúdo.

O Congresso

Pensei em discursar longamente sobre cada uma das palestras apresentadas, mas acho que não será necessário. Provavelmente a organização irá disponibilizar os vídeos e vamos compartilhar por aqui. Assim, vou me ater a um relato superficial de tudo o que aconteceu.

Minha palestra foi.. sei lá, não lembro muito bem, alguém que esteve lá e quiser escrever sobre mim, fique à vontade. Realmente não sei me avaliar dessa forma.

Mas destaco a belíssima mesa redonda feita com o Prof. Dr. Mario Sergio Cortela. Existia muita duvida do que seria apresentado ou discutido pelo Professor. Ouvi muita gente questionando o que alguém de um universo tão afastado do parkour, poderia nos dizer sobre, vamos dizer, nós mesmos.

Dr.Cortela nos passou uma visão primorosa sobre tudo o que fazemos. Uma noção filosófica sobre como questionar o que fazemos e aplicar os critérios certos para isso. Contou histórias e enfiou dedos em feridas. Impressionante o preparo do Professor, que sem nenhuma dificuldade, falou sobre temas como Método Natural, Parkour, eficiência, medo, riscos, e várias outras coisas que não consigo nem lembrar. Este deve ser um dos vídeos mais esperados do ConPK.

As outras palestras foram menos impactantes, mas não menos importantes. Alexandre Lordêllo apresentou uma análise histórico-crítica do Parkour, em uma tabela que gerou enorme furor na platéia. Mesmo com uma visão bem diferenciada do que a maioria concordava, abriu um caminho para uma visão diferenciada sobre Parkour e Freerunning, com algumas divergências sobre a origem.

Cassio Junior apresentou de forma primorosa, em uma apresentação feita com muita propriedade e segurança, toda sua experiência em treinos de Parkour para escolas. O que mais me atraiu nessa palestra foi a maturidade que Cássio demonstrou em seu projeto, traçando uma evolução firme e consistente, registrando erros, lições aprendidas e resultados. Jean complementou o assunto em uma palestra sobre a profissionalização do ensino de Parkour. Essa mescla de palestras sobre profissionalismo veio em um excelente momento.

Cortela, Jean e Duddu, que fazia bico de cobrador de ônibus nas horas vagas.

Ao meu ver, a falta de uma postura mais profissional causa aos poucos uma marginalização do Parkour.

Gustavo transportou todos os presentes, principalmente os que não são praticantes de Parkour, para o universo dos treinos descalços. Relatando com detalhes sua experiências, os benefícios percebidos e as diferenças que devem ser adotadas ao se treinar sem calçados. Eduardo Rocha passou sua visão e experiencia sobre grupos de parkour e organização de associações, e Bruno Peixoto, Rachacuca como conhecemos, contou um impressionante relato sobre sua experiência na Europa, e todas as diferenças culturais que encontrou por lá.

Resumindo em miúdos, foi isso.

A Conferência

No pós-evento, estava planejado uma conferência de parkour, para discutir temas atuais e algumas perguntas que não couberam no congresso, pelo pouco tempo que existiu após as apresentações.

Nos reunimos na academia Tracer para discutir problemas e eliminar ruídos existentes na cena de Parkour. A conversa começou por volta das 20h e a ultima foi acabar por volta das 2 da manhã. Muitos assuntos foram discutidos. Mas o que destaco, é a necessidade de cortarmos intrigas e brigas no Parkour. Entendemos que, apesar de ideias diferentes com caminhos que parecem divergentes, o objetivo da grande maioria é o mesmo. Todos queremos transformar o Parkour em uma atividade mais séria, com maior capacidade de se manter e melhores condições perante a sociedade. Se todos querem o mesmo objetivo? Porque não deixar as divergências de lado e aprender a trabalhar juntos?

Essa foi uma importante mensagem que os dois dias de evento conseguiram transmitir muito bem. A necessidade de criar conteúdo que instrua os que estão seguindo, e fortaleça o que já estão no caminho. Durante a conversa sugeri algumas ideias para próximos eventos e para estimular que os praticantes sintam-se mais a vontade em criar esse tipo de material. Espero que daqui pra frente muita coisa mude.

Parkour na forma prática

Nem só de teoria viveu este evento. Outra grande particularidade deste evento foi mostrar que deve existir um equilíbrio entre prática e teoria. Que teoria sozinha não vai muito longe, mas que a prática sem a reflexão sobre o que, ou porque está se fazendo algo também gera frutos. Nessa pegada, o segundo dia do evento foi inteiramente prático, com oficinas para os mais variados públicos.

Alguns palestrantes utilizaram a estrutura da academia tracer, outros utilizaram a rua, mas foi importante mostrar para quem não estava habituado, os diferentes tipos de treinos que existem por ai.

A primeira atividade foi uma oficina de Flow com Eduardo Rocha, seguido de um treino a moda Parkour Generations com Bruno Rachacuca e uma oficina executada pelo Cássio Junior sobre aula de Parkour para crianças. Ministrei a última oficina do evento com um treino para iniciantes, tentando não fixar movimentos predefinidos, apenas movimentação e interação com os obstáculos.

Balanço Geral

Conto os segundos para a próxima edição do evento. Espero também que outras iniciativas parecidas surjam por ai, e que esse dialogo entre os praticantes seja estimulado ao máximo. Eliminar o pensamento de que “quem treina não discute”, fortalecendo a mensagem que discussões saudáveis e treinos devem caminhar juntos, ou a prática vai acabar morrendo no país. Não pude observar, mesmo um pouco mais de perto, nenhuma falha na organização do evento.

Vejo pontos positivos até mesmo em palestras que não concordei muito, porque todos os diálogos devem ser levantados e debatidos.

Acredito que todos os presentes ficaram bem satisfeitos com o evento, de um modo geral. Todos os que não foram, e sabem quem menciono, fizeram extrema falta, em um evento que tem tanto para agregar. Fica meu apelo para que no próximo, todos compareçam e, de coração aberto, compartilhem seu conhecimento conosco.