Diferenças culturais exercem grande influência na “evolução” dos tracers. Por que tendemos a achar que orientais fazem tudo melhor? Essa resposta costuma doer no nosso brio, mas ela é bem objetiva: Determinação e rotina. Pois é, nós brasileiros, culturalmente, temos o “hábito” de ser menos objetivos, tendemos a reclamar demais e fazer de menos. Crescimento e melhora são diretamente proporcionais à sua determinação e empenho para que isso aconteça. Então, tracers geralmente se empolgam muito no início, mas, com o decorrer do tempo, querem respostas imediatas, buscando o nosso clássico jeitinho. Só que, feliz ou infelizmente, não existe um jeitinho para tudo e, quando esse jeitinho existe, com ele vem o ônus.

Qual a diferença de um tracer, para um artista circense, ou um artista marcial? Em geral, apenas a prática em si é o que os difere, mas a entrega para ser bom em qualquer uma delas tem de ser real e “total” (entendendo total como dentro dos seus limites). Assim, vemos com frequência associações dessas práticas a religiões, o que alguns enxergam como verdadeiro exagero, entretanto, se pararmos para pensar um pouco, é apenas outra forma de enxergar a religião. Não estou falando daquela fé cega e sem reflexão, mas da dedicação e seriedade com que tratamos a prática em si. Tratar a prática de forma “religiosa” não significa tratá-la como religião, mas encará-la com religiosidade. Essa percepção é delicada e, muitas vezes, passa despercebida. Importante lembrar que isso não inviabiliza a ludicidade nem o hedonismo inerentes à prática, mas os encara de outra forma.

Respeitamos o outro, o nosso espaço de treino e o nosso corpo, que é o nosso templo, afinal, não existe mente sã sem corpo são e vice versa. Assim sendo, por que vemos uma dissociação da prática disso? Porque, de um modo generalista, os jovens vêm perdendo a noção do que é respeito a si e aos outros, buscando a prática apenas como mais uma forma de se sobressair.  Assim, vemos cada vez mais tracers de final de semana, sem entender o que estão fazendo ou por que estão fazendo, pois são apenas reprodutores de uma prática vazia, sem sentido, sem responsabilidade nenhuma com seu corpo ou com o dos outros, porque, além de praticarem, muitas vezes reproduzem um conhecimento que não têm, e o que vemos é uma sucessão de lesões cada vez piores, já que estão “todos” à procura do jeitinho, da forma mais fácil.  A arte do deslocamento, aos poucos vai se perdendo, deixando de ser “arte” para cada vez mais se tornar deslocamento e, na maioria das vezes, nem isso.

O problema é que esse perfil se reflete em todos os aspectos da cidadania do povo brasileiro (se é que sabemos, o que é cidadania). Somos reclamões, pois reclamamos de tudo: Dos políticos corruptos, do preço da gasolina, da cesta básica e em contrapartida estamos sempre atrás da maneira mais simples; reclamamos tanto, mas agimos da mesma forma. E estamos fazendo isso com o Parkour, sendo que, ao não fazermos nada, estamos criando uma ausência de futuro, ou, sem percebermos, a prática está evoluindo (entendendo evoluir no seu sentido literal, como mudança), só não posso afirmar que essa evolução é para melhor ou para pior. Se existe uma solução pra isso, sugiro que deixemos essa preguiça de lado, pois nem toda rotina é ruim e, ao nos organizarmos estamos criando talvez um futuro melhor.

Esse comodismo brasileiro não surgiu do nada, não somos incentivados a pensar. A educação depois do golpe militar até hoje não conseguiu se reestruturar. Vivemos em um país de analfabetos funcionais, não temos criticismo e estamos ficando cada vez mais obesos. A educação esportiva no Brasil soa como piada. Lá fora você tem educação em tempo integral, as crianças são obrigadas a fazer algum esporte. E aqui? Jogam uma bola no meio da quadra (quando tem quadra) e apitam um babinha. Enfim, é obvio que o problema é muito mais profundo, mas não adianta só ficarmos confortáveis nas nossas poltronas pontuando os problemas. É hora de arregaçarmos as mangas e começarmos a resolver.