Acredite você ou não, vai acontecer.

Mais de dez anos após começar a engatinhar no Parkour, a primeira competição – reconhecida – de parkour inteiramente nacional está para acontecer. Muita água já rolou no Brasil até este evento, do fatídico protesto no Art of Motion em 2011, até pequenas tentativas regionais de competições. No fim, nada pareceu que ia muito pra frente no Brasil, mesmo ganhando espaço cada vez maior lá fora. Na Europa já são incontáveis as iniciativas que promovem algum tipo de competição, até um dos Yamakasi organiza um evento de cunho competitivo, o XTREME GRAVITY.

Quando soube que o Desafio Parkour iria acontecer, foi com a proposta de Narrar o evento, mas prontamente declinei. Adianto aqui os motivos nos quais não aceitei, já que todos são parte integrante da minha opinião sobre o tema. Sempre quis ser narrador ou comentarista de canais esportivos, foi por isso que a proposta surgiu. No caso seria Globo, não ESPN ou SporTV como eu gostaria. Apesar de ser uma proposta bem interessante, deixei a oportunidade seguir.

O DCM é um movimento

O Decimadomuro é uma das minhas grandes felicidades. É algo que entre trancos e barrancos conseguiu sobreviver, adaptar-se e disso tudo, amadurecer. Ele é parte da comunidade nacional do Parkour e sempre levantou valores compartilhados por essa comunidade.  Basta observar que, se não fosse pelo  Eduardo – Duddu – Rocha, talvez o site não existisse mais. Se não fosse o pedido das pessoas para o site voltar, quando resolvi tirá-lo do ar, o DCM seria apenas uma lembrança de mais uma coisa que veio e desapareceu no Parkour nacional, dentre tantas outras tão importantes. Por isso, quando eu falo algo sobre Parkour – e aprendi isso com broncas do próprio Duddu – estou falando em nome do DCM e isso traz enormes consequências. Há não muito tempo compartilhei um vídeo, no calor da emoção, porque fiquei impressionado com ele e tudo mais. Depois de ver o “estrago” que foi feito, acabei deletando e mudando minha política pessoal de compartilhamentos.

Aprendi que: quando eu boto meu nome apoiando algo, estou dizendo que não apenas incentivo aquilo, mas que o DCM concorda.

Acho – e já disse isso em vários podcasts, seria hipocrisia negar – que podem sim existir modelos interessantes de competição que mantenham o espirito do Parkour. Modelos que não foram feitos ainda, que nem imaginamos, mas que eventualmente vão surgir ai para deleite ou desgosto de cada um. Entretanto, não sou eu quem vai propor ou incentivar estes modelos, uma vez que meu foco é muito diferente do que uma competição ou desafio podem propor. Quem me conhece e acompanha o trabalho que tenho feito, pode observar que sou fomentador do auto-conhecimento, da descoberta pessoal e da construção base do Parkour no Brasil.

Esta é a proposta do meu trabalho e seria incoerente – até violento – com quem vem apoiando meu trabalho, se eu assumisse uma posição diferente, levando o DCM comigo. 

Competições não vão mudar o Parkour

Por muito tempo militei contra competições, usei o banner Pro Parkour Against Competition em meus blogs e tudo mais. Ainda não acho que competições expressam as qualidades do Parkour, sei que podem ser extremamente perigosas, substituindo a prudência e autopreservação pela vontade de ganhar. Além disso, também acredito que podemos empregar nossos esforços em melhores fins, talvez mais voltados para a comunidade.

Só que não posso deixar de deixar claro alguns pontos básicos, para enriquecer a discussão sobre o assunto.

Ninguém precisa ou será obrigado a competir, nem agora nem em 100 anos. Nada pode mudar isso.
Eu e você somos livres para fazer as escolhas que quisermos, mas para isso, temos que deixar outras pessoas livres arcarem com o peso das escolhas delas. Quando discutimos sobre movimentos estéticos, sempre surge alguém com o argumento da liberdade, e é com essa mesma liberdade que algumas pessoas vão competir e outras vão organizar competições. As pessoas que participam deste evento não se tornam vilões, são pessoas que buscam objetivos que não compreendemos, mas também não cabe a nós apontar o dedo. No evento existem pessoas que gostamos muito e outros que não nos identificamos em nada, nenhum é melhor ou pior por está participando deste evento.

Sou praticante de uma modalidade altamente competitiva e que teve seus moldes completamente alterados para atender as exigências das competições. O Jiu-jitsu Brasileiro hoje se divide claramente em duas vertentes, a que é voltada para o esporte competitivo e a que é voltada para a aplicação marcial, ou como nos referimos, defesa pessoal. Existem os que criticam o modelo esportivo e o uso de técnicas que se mostram efetivas apenas em ambiente competitivo, outros que navegam tranquilamente entre os dois mundos, e o terceiro grupo, os que não competem mas se beneficia de tudo o que aparece ali.

Assim, provavelmente acontecerá com o Parkour. Dentro de 10 ou 15 anos estaremos – virtualmente – divididos entre que treinam pelo desenvolvimento pessoal, buscando melhorar suas capacidades e desenvolver habilidades eficientes, que possam ser úteis em situações casuais de emergência, e aqueles que treinam por competições, desempenho, performance e inovação. Alguns trafegarão entre os dois mundos tranquilamente, outros ficarão no lado que se identificam mais. Mas no fim das contas, o Parkour vai continuar sendo o que é.

Competições são uma realidade

Por mais que todos nós estejamos mordidos com isso, competições são reais, e já acontecem no mundo todo. Veja bem: Com essa frase, não quero dizer que sou à favor. Estou apenas apontando um fato que não dá mais para ser negado. Durante uma discussão no grupo Parkour Brasil, disse que precisamos sair da discussão de ideais e buscar medidas tangíveis para o que está acontecendo. Com isso não quero dizer que não devemos discutir os ideais do Parkour, mas que competições não são uma hipótese distante. Os mais diversos modelos já acontecem desde 2008 e só estão crescendo. A gente pode discutir o sexo dos anjos, ou começar a pensar em como podemos realmente proteger os tais ideais que acreditamos.

Além disso, competições vêm acontecendo antes mesmo de pessoas resolverem organizar eventos para isso. Como já disse em diversos textos por aqui, o Parkour criou praticantes extremamente competitivos, e  jogar um lençol em cima disso, tentando fingir que isso não acontece é alimentar uma ilusão. Acredito que muito dos efeitos, são reflexos do que normalmente fazemos. Se somos competitivos nos treinos com nossos próprios amigos, é evidente que surgirão eventos explorando este traço tão particular.

Por isso devemos observar o que não fizemos pelos nossos ideais. Onde será que falhamos? Como o Parkour acabou virando uma caricatura do que ele mesmo criticava? E Principalmente, o que eu, você ou qualquer um fizemos contra isso ao longo de todos estes anos que o Parkour veio se desenvolvendo no Brasil? Estas e inúmeras outras, são perguntas que não sabemos responder, mas vale sentar e matutar um pouco sobre elas.

Somos ações não ideias

Somos, cada um de nós, responsáveis pelo desenvolvimento do Parkour que acreditamos. Eu posso sentar e criticar o evento, mas ajudará em nada o ideal que busco. Posso ir para o evento e protestar, mas ainda vai valer zero. Eu posso criar meu próprio evento, encontro ou seja lá o que for, focado em transmitir os valores que eu acredito. Isso sim, é uma atitude efetiva que alcança pessoas, educa e amplia valores.

Nossas ideias, ainda guardadas em nossas cabeças ou jogadas aos ventos em formas de palavras, pouco valem. O que realmente muda alguma coisa são nossas atitudes. Como disse antes, o que acontece é apenas reflexo do que nós estamos fazendo.

Sei que muita gente faz bastante pelo Parkour e obviamente podem se sentir excluídos de alguns questionamentos, outros, incontáveis outros, se levantam com uma enorme dívida, pois nada fizeram para educar os praticantes em caminhos diferentes. De nada adianta gritar que é Pró Parkour e contra competições, sentado na sua cama enquanto toma sorvete. Trabalhar pra mudar, poucos querem.

Gostamos muito de criticar, nos sentir ofendidos e achamos que estão roubando algo que é nosso, mas pouco gostamos de assumir as rédeas do problema, receber a responsabilidade no peito e enxergar que, se algo está errado, nós que devemos fazer a diferença.

Se cada um que abre críticas ao modelo competitivo, também organizasse um evento com foco oposto, declarando com força o que acredita. Teríamos centenas de eventos de Parkour promovendo valores positivos para cada competição que acontecesse. Vocês acham que competições ainda seriam um problema? Seriam tão poucas comparadas com o tanto de eventos com bases no Parkour, que se tornariam irrelevantes.

Novamente, entendo tudo de negativo que pode surgir disso, mas nunca fui bom em me contentar com reclamações. O que quero mesmo, é saber como vamos mostrar o outro lado.

Com isso, me resta deixar a pergunta, o que você faz pra mudar?

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Abro aqui o pedido para que meus parceiros de DCM refutem meu texto com posts resposta, caso seja necessário. Mesmo entendendo que minha voz fala pelo site, a de vocês também fala, e com isso podemos demonstrar que divergências existem, mas que tentamos discutir e nos entender. Para os leitores, comentem a opinião de vocês e caso sintam interesse, abrimos o espaço para publicarem textos em resposta.