Recentemente algumas pessoas vieram me questionar sobre um tema bem comum para quem treinar Parkour ou qualquer atividade que interaja com o meio urbano: Os vigias/guardas as proibições para treinar em lugares públicos ou parcialmente privados – públicos com vigilância privada.

Quem nunca estava treinando e foi interrompido por alguém dizendo que não poderia fazer aquilo ali? Acho que qualquer pessoa que tenha treinado por mais de 1 mês já passou por uma abordagem desse tipo. Muitas vezes gerando bastante confusão. Mas vou tentar explicar as maneiras como podemos encarar a situação e as formas que existem para contornar – ou não – o problema

O que fazer ao ser abordado?

Ao ser abordado por um profissional de segurança a primeira coisa que precisamos entender é: Quem é essa pessoa? E por que está nos dizendo aquilo?

Pode parecer estranho, mas essa pequena reflexão pode evitar enormes problemas, evitando que uma mancha surja no nome do Parkour brasileiro.

Veja bem, o guarda que faz a reclamação raramente tem algum tipo de poder sobre a propriedade que está defendendo. Ele só tem duas preocupações quando aborda você, pedindo que pare de treinar no local.

A primeira é: “Vou tirar esse rapaz daqui antes que ele estrague o lugar e eu receba uma bronca por isso”, e a segunda é bem similar, “Eu só quero evitar problemas no meu turno e ir embora para casa tranquilo”. Aquela pessoa pouco pode decidir sobre mandar você parar de treinar ou não, está apenas seguindo ordens de quem paga o salário dele. Qualquer pessoa no lugar dele faria a mesma coisa, pediria para quem estivesse ali ir embora para que ele continuasse tranquilo, sem problemas.

O reflexo de quem recebe a abordagem muitas vezes é negativo, ficando nervoso e esbravejando contra o segurança. Infelizmente o vigia pouco pode ajudar. Ordens são claras e ele não quer perder o emprego. Mesmo sabendo que muitas vezes temos o direito legal de treinar onde estamos treinando, o rapaz não sabe ou não se importa com isso. O cara que paga o salário dele disse para cuidar do lugar e ele vai fazer isso.

Por isso quando algo do tipo acontece, a postura inicial deve ser acalmar os ânimos e pedir desculpas. Tente reduzir o fator de estresse ao máximo, para que uma conversa civilizada possa surgir dali. Se existir – SE EXISTIR, entendeu? – abertura, tente explicar que está treinando, que não existe risco e não vai quebrar nada. Mas lembre-se, não é um debate, apenas uma explicação. É muito provável que o vigia não entenda e diga que não pode fazer nada quanto a isso. Neste momento, o aconselhável é sair do local e buscar um pico novo para treinar.

Sem discutir.

Discutir com quem não toma as decisões não vai mudar em nada, o rapaz pouco pode fazer para mudar aquela situação. Insistir em algo só vai criar problemas para alguém que está trabalhando, tentando ganhar seu salário. Uma discussão ainda pode piorar qualquer negociação futura, gerando a associação entre o Parkour e briga, como se vocês só quisessem causar problemas.

Mas e então? O que fazer?

Se vocês realmente quiserem treinar naquele local, o primeiro ponto é fazer como sugerido no ponto anterior. Tente explicar o que está fazendo, se não ajudar, peça desculpas e vá embora. 

Volte ao lugar em horário comercial, tentando encontrar quem é responsável pela administração do lugar. Muitas vezes é uma loja que fica na frente, uma empresa que administra um espaço público ou um condomínio que possui uma estrutura administrativa. Não importa quem seja, ao invés de discutir com os guardas, tente achar quem realmente dá as ordens por ali. 

Ao encontrar o responsável, seja civilizado, explicando com educação tudo o que aconteceu e porque é importante para você continuar utilizando aquele espaço. Tente sugerir um acordo, deixando seu telefone e números de documentos: Assuma responsabilidade por qualquer eventualidade que aconteça. Neste caso é importante enfatizar que, ao assumir isso, você pode acabar pagando por coisas que você não fez, mas faz parte do ônus do acordo.

Ninguém vai permitir que você use um lugar sem arcar com as consequências de qualquer dano.

Pergunte para o Peter Parker:

com grandes poderes vêm grandes responsabilidades

com grandes poderes vêm grandes responsabilidades

Entenda que você está pedindo para interagir com algo que não sofria intervenção antes, e isso pode gerar custos. Seu papel neste caso é mostrar que sua utilização não vai gerar prejuízo pra ninguém, se mostrando pronto para cobrir qualquer despesa, seja com pintura da parede com marca de pé, corrimãos quebrados ou qualquer tipo de dano causado. E se você está pensando agora: “Mas eu não quero pagar por isso” acredite, nem eles.

Entretanto é bem difícil que você, sozinho, consiga estabelecer um acordo neste sentido. Uma pessoa física não representa uma voz forte – ou confiável – o suficiente para tal mudança. Por isso associações locais podem ser bem úteis, pois expressam a voz de várias pessoas num mesmo sentido. Se no lugar onde mora possuem muitos praticantes e proibições estão se tornando cada vez mais frequentes, talvez seja a hora de criar uma associação legalizada para ganhar força nesses acordos.

Tudo mesmo vai depender da maturidade de ambas as partes e do tamanho da força que vocês conseguirem mostrar que o Parkour tem.

O ponto aqui é entender que uma ação só será eficiente se você falar com quem realmente tem autoridade e demonstrar que possui força (um grupo unido pela causa) e responsabilidade (para arcar com as consequências). É bem difícil conseguir alguma liberação sem passar por esses tramites mencionados aí em cima.

Não rolou, e agora?

É possível que você, mesmo tendo uma associação feita, cnpj e tudo legalizado, não consiga estabelecer um acordo para treinar no pico desejado. Agora só resta uma saída, achar outro lugar.

Todos nós já passamos por isso. O primeiro lugar no Brasil a receber uma proibição oficial foi a praça da Sabesp em São Paulo. O lugar ganhou uma placa proibindo o Parkour antes mesmo que se tornasse popular. Na época a praça era o principal ponto de treino dos praticantes paulistas e causou extrema indignação. Entretanto, coisas positivas surgiram dessa experiência.

Parkour não é feito para treinar em apenas um lugar, por melhor que este pico seja. Em todos os casos que vi no Brasil, a proibição forçou praticantes a encontrarem um novo local de treino. Em Brasília fomos proibidos de treinar nos Castelinhos, o que na época foi revoltante. Devido esta proibição encontramos inúmeros outros lugares, melhorando ainda mais a qualidade dos treinos. Sempre vai ser assim, se não pode treinar num lugar, use a criatividade e vá em busca de outro ponto.

Se seu Parkour está limitado ao mesmo ponto, é possível que ele não esteja mais se desenvolvendo. O parkour está em você não no pico de treino.

Utilize dessas adversidades para crescer. 

Em resumo, é importante saber que o rapaz que te aborda não quer problemas, e pouco pode fazer para te ajudar. Para poder resolver o problema é importante encontrar quem realmente decide alguma coisa e, caso nada disso dê certo, assumir que o Parkour é maior que um pico de treino e pode se expandir sem aquele lugar específico.

Tentar resolver tudo sem criar conflitos ou criar uma imagem de que Tracers são bagunceiros. Mesmo entendendo os direitos que possuímos, nosso objetivo é tentar resolver de forma inteligente e com pouco efeito colateral. Por isso vale a pena recuar para agir de forma mais eficiente.

Se tiver algum caso, alguma forma que conseguiu contornar essa situação, compartilhe aqui com a gente!