Todo ano é a mesma coisa. A Redbull inicia seus trabalhos de divulgação do Art of Motion e no mundo todo as críticas começam. Todos fazemos questão de gritar: “Parkour não tem competição”.

Puta mentira descarada essa sua!

Tracers são em sua essência as pessoas mais competitivas que já tive oportunidade de conviver. Nem lutadores que ficam se batendo querendo ver o oponente sangrando deitado no chão, conseguem ter um espírito tão competitivo quanto o que observo na maioria dos praticantes que conhecemos por ai. Talvez a falta de um campeonato oficial favoreça o crescimento de um espírito velado de competição. Uma competição que todos fingem que não estão vendo, mas todos sentem seu efeito.

Essa competição que acontece no Parkour não tem juízes ou prêmio, mas todos participam. Não elegemos os melhores na rua, mas se alguém que sobe o muro usando o cotovelo faz algum tipo de declaração, ela tem menos peso do que a besteira que aquele cara super habilidoso disse.

Estava acompanhando uma discussão no perfil do Duddu no facebook e vi alguém utilizando uma citação do Daniel Ilabaca para vencer uma argumentação. Daniel Ilabaca é um dos tracers mais habilidosos que já tive oportunidade de acompanhar pessoalmente. Poucas pessoas no mundo são capazes de fazer o que ele faz, com tamanha frieza. Só que isso não garante que ele seja um sábio. Grande parte das suas últimas declarações beiravam a insanidade.

Queremos ser amigos daqueles caras super fortes e rápidos. Coroamos eles com o merecimento da nossa atenção, enquanto os últimos lugares, aqueles que se dedicam tanto quanto os outros, mas não tem tanta facilidade em se desenvolver, seguem anônimos por ai.

Em discussões você consegue observar claramente um peso maior na opinião dos mais habilidosos em relação a visão daqueles que enfrentam dificuldades no seu treino. Quando na verdade, os que adquirem uma maior visão das coisas são aqueles que se deparam frequentemente com adversidades.

Toda vez que você julga alguém por não ter uma precisão longa, subir um muro rápido ou ter um planche retinho, você está jogando seu Parkour na lata do lixo. Toda besteira que falamos diariamente, de que no Parkour o que importa é o desenvolvimento individual, cada um no seu ritmo, não serve de nada se você respeita mais o cara que está no comercial do que o carinha que sobe muro ralando o antebraço!

Estou de saco cheio de ver vídeos perfeitos, com subidas rápidas, saltos longos e perigosos e com movimentos afiados. Eu quero ver quem faz o Parkour na real, sem se preocupar com a estética! Que sobe o muro na cara e na coragem, sem selecionar a melhor cena. Gravar um vídeo de 5 minutos, sem cortes passando por tudo o que aparecer pela frente, subindo torto, rolando errado, ralando a cara no muro. Tracers erram também!

É importante saber ouvir o que está sendo dito, ao invés de se focar em quem está dizendo. É óbvio que quem está a mais tempo por aí pode ter uma ideia mais ampla do que está acontecendo, mas isso não garante que não saiam besteiras.

Quando a gente só valoriza aqueles que são tecnicamente melhores estamos esquecendo o Parkour que estamos tentando alcançar. Não sei para você, mas para mim, Parkour é sobre seres humanos melhores, tudo aquilo que torná-lo fora disso, merece ser descartado.