Por ser francês e ter aprendido Parkour em Lisses com David Belle (no inicio de 1998), tive a sorte de fazer parte do começo do Parkour. Tive a chance de treinar e aprender no tempo em que o que fazíamos era completamente desconhecido pelo mundo: só um monte de moleques loucos treinando “alguma coisa” em uma cidade pequena. Sem interesse da TV, do jornal, sem câmeras e sem a  internet. Somente a cidade, nossa busca por identidade, nossos medos e um corpo e mente ansiosos por desafios, desenvolvimento pessoal e crescimento.

             Depois de um tempo, naturalmente eu comecei a ensinar e compartilhar o conhecimento que eu recebi do treinamento com David Belle, Sebastien Foucan e Williams Belle, os quais foram todos grandes inspirações para mim. Ao transmitir esse conhecimento e me deparar com a nova geração de praticantes, eu logo percebi uma coisa: o Parkour está evoluindo, mudando e uma parte dele está sendo dissolvida. Está sendo criado um novo rumo e uma nova mentalidade.

             Na época eu pensei que, enquanto nós conseguíssemos manter vivos a essência e o espírito do Parkour, estava tudo bem, que havia espaço para todos e que todos somos livres para pensar e fazer as coisas da forma que quisermos. Eu preferia focar no que compartilhamos, em quais são as semelhanças entre o nosso movimento, a forma como treinamos e a forma como vivemos, ao invés de separar ainda mais a nossa comunidade numa fase tão precoce do progresso do nosso “movimento”.

             Então, minha abordagem e meu recado durante esses últimos 5-6 anos eram muito similares ao de uma federação: ver a coisa toda como um movimento UNIDO que deveríamos desenvolver juntos. E essa intenção estava correta, eu acho, no começo.

             Hoje, muitos anos depois, eu já trabalhei de perto com praticamente todas as grandes comunidades de Parkour do mundo. Tive muito tempo para observar o Parkour crescer e evoluir, cheguei a uma conclusão e posso dizer honestamente que essa onda de rediludidos (termo criado por Sebastien Foucan para designar esse vírus que tem diluído o nosso movimento) e aqueles que só tentam se exibir NÃO ESTÃO fazendo Parkour! Eles NÃO ESTÃO treinando a mesma disciplina que nós criamos na França anos atrás.

             Por mais que os saltos deles pareçam os mesmos em um vídeo e pareçam os mesmos visualmente, o significado por trás deles, o motivo e o estímulo que os levam a fazê-los, o estado de espírito ao realizá-los e seus propósitos são, em essência, completamente diferentes. Parkour não é, e nunca foi, acrobacias aleatórias nos muros. Para esses caras, o que realmente importa é o que sua apresentação pode trazer de beneficio ou prejuízo. Eu consigo ver uma verdadeira divisão ocorrendo entre muitos da nova geração e que estão tentando praticar Parkour.

             Permita-me explicar o que é Parkour de fato: Parkour é uma prática baseada no movimento, que ajuda a tornar indivíduos mais fortes fisicamente e mentalmente, tornando-os seres humanos equilibrados que então ajudarão à comunidade e outros indivíduos com essas bases sólidas.

             É uma definição bem abrangente e eu tenho certeza que muitos pensam “Sim, esse sou eu. Eu faço isso”. Mas pense de novo. Detalhes fazem toda diferença. Parkour é UMA MENTALIDADE. Um estado de espírito. Uma cultura de trabalho duro e esforço que é o que deu origem a sua existência, em primeiro lugar. Sem essa mentalidade, se ele fosse somente baseado nas mensagens vagas e eventos terrivelmente superficiais e vazios representados pela mentalidade Red Bull, o Parkour nunca teria sido criado.

             Mais uma vez, visualmente parece a mesma coisa, mas o que está acontecendo por trás do salto, na mente de cada praticante, para mim é o que define se você está fazendo Parkour ou não. É uma mentalidade que você pode encontrar em muitas outras atividades ou pessoas. E essa é a essência do Parkour. Não o maldito pulo!

             Parkour deve ser mais pessoal, focando no trabalho interno que todos devem ter para se tornarem seres mais fortes em vários aspectos. Isso é uma mentalidade. E você pode encontrar essa mentalidade na pintura, na escrita, no boxe… etc. Praticamente em tudo o que fazemos, na verdade.

             Recentemente, durante uma conversa com meu amigo, Ido Portal, isso se confirmou. Não se trata realmente do que fazemos, mas COMO fazemos. Com qual propósito e estado de espírito. Eu me sinto mais próximo e me relaciono mais com pessoas que praticam qualquer atividade com essa mentalidade do que com qualquer rediludido que eu conheci.

             Quando eu entro no Youtube e quando pesquiso por “parkour” ou “freerunning”,  eu não consigo me relacionar ou me sentir próximo com o que aparece 99,99% das vezes. Por quê? O que fazemos é completamente diferente do ponto de vista interno. Enquanto no Parkour nós estamos tentando entender mais sobre nós mesmos, ganhar mais confiança, ser uma pessoa mais feliz, mais fortes em muitos pontos da nossa vida, os outros estão alimentando os próprios egos com performances de curto prazo e que só trarão mais sofrimento e eventualmente o fim da movimentação e de sua boa saúde.

             Existe uma clara DIVISÃO entre o que fazemos agora. A palavra “Parkour” tem sido usada excessivamente e erroneamente. Ela perdeu força e significado. A identidade do Parkour tem sido roubada e explorada. Essa falsa representação está, na verdade, representando tudo o que nós lutávamos contra nas primeiras etapas de criação do Parkour. Essas grandes marcas estão vendendo a nossa própria cultura de volta para nós mesmos, nos prendendo no consumo de seus produtos, tentando tomar posse e abusar da imagem do Parkour para vender energéticos, jogos de azar, ginásios indoor… Quanto mais você seguir essa mentalidade, menos você será livre e forte.

             Isso é bem perturbador, se você parar para pensar. Essa nova distorção se tornou a mentalidade oposta da mentalidade que deu origem ao Parkour! Pesquisando um pouco, percebi muitas pessoas “descontentes” (para ser educado) com essas grandes campanhas de organizações como a Red Bull nas comunidades de skate e graffiti. Talvez xiitas, mas pessoas que estão bem conscientes de que estão sendo exploradas e estão tomando medidas para lutar contra essa grande máquina que está roubando deles também.

             Eu sinto muito pelo meu amigo Sebastien Foucan que começou a usar a palavra “freerunning” depois do Jump London. A definição original dessa palavra se perdeu e também foi devorada pelo grande parasita e agora representa algo completamente diferente de seu ponto de vista inicial.

             Pense sobre o que nós estamos fazendo. Reflita sobre suas ações e movimentos. Por que você se move? Por que você se arrisca? Seja honesto consigo mesmo quando estiver respondendo essas perguntas. E descubra se o que você está fazendo realmente se alinha com uma filosofia positiva e significativa. Não pense que você é livre e forte porque você acabou de compartilhar seu novo salto no Youtube ou porque você é patrocinado por alguma marca sem sentido.

Eu fiquei quieto até agora e eu provavelmente vou perder alguns “amigos” do Facebook com essas palavras, mas eu sinto que eu precisava falar alguma coisa porque o que nós treinávamos antes está morrendo e sendo substituído por uma piada. Sendo substituído por algo que peca em sentido e relevância. Eu acho que muitos praticantes sérios ao redor do mundo compartilham do mesmo pensamento e eu encorajo vocês todos a falarem mais alto!

 – Stephane Vigroux

Texto original disponível no site da Parkour Generations Asia.
Tradução realizada por Guilherme Salomão.
Revisão por Eduardo Rocha.