O DCM vem passando por uma fase com textos densos e um que precisam de um tempo para serem digeridos. Hoje escrevi um texto num formato que não costumo usar, mas tentei aplicar informações que funcionem como faísca, apenas uma ideia que deve entrar na cabeça dos Tracers (principalmente os que estão chegando) e auxiliar no crescimento além da prática.

O título é, obviamente, uma grande piada, mas que vai em conjunto do que realmente pensam os Tracers que estão há mais tempo no Parkour.

Não é uma provocação, apenas uma forma descontraída de transmitir informação.

Confira a lista.

1. Treine

De todas as atividades que passei, mesmo as artes marciais, nenhuma valoriza tanto o treino como o Parkour. Ser bom e fazer coisas difíceis pode ter seu impacto, mas manter uma rotina  de treinos bem afiada quebra qualquer argumento.

Isso acontece porque não esperamos que uma pessoa seja boa, mas sabemos que o esforço, cedo ou tarde levará o Tracer para um outro patamar, seja físico ou mental. Os Tracers possuem um leve desejo masoquista, onde acabam valorizando aqueles que se expõem ao esforço e crescem a partir da dor.

As pessoas podem dizer que você não é bom, o que pouco importa, já que não estamos competindo. Mas treinando firme, poucos argumentos restarão contra você.

ps: a não ser que fale besteira.

2. Antes de Inventar, Faça o Básico

Não existe nada mais típico nos modinhas que chegam no Parkour, ano após ano, do que tentar inventar movimentos ~radicais~ antes mesmo de saber fazer o que é essencial para a prática.

Eu gosto muito de assistir vídeos dos iniciantes e observar como trabalham os movimentos, quais são as linhas que os treinos seguem. Na maioria das vezes a conclusão é a mesma. Fazem um monte de coisas até divertidas, mas o amadurecimento mostra que estes movimentos vão acabar ficando de lado. 

Antes de tentar dar estrelinhas por cima do corrimão, tente dominar o básico do Parkour, que é até muito mais simples , ainda garante uma base física boa o suficiente para inventar o que quiser com bem menos risco no futuro.

3. Não tenha medo de errar

Eu sempre tive muito medo de errar, e reconheço esta deficiência. Por muitas vezes fui até encontros e não fiz nada por medo de errar, cair e me sentir ridicularizado. Hoje, felizmente, enxergo estas coisas de uma forma diferenciada. Quando eu erro algum movimento, minha inibição some quase que totalmente. Partindo deste erro começo a melhorar exponencialmente a cada nova tentativa.

O medo de errar é algo que nos trava em qualquer situação, mas no Parkour acaba sendo mais perigoso ainda. Quanto mais ego colocamos em nossos treinos, menos queremos tentar coisas novas, porque maiores são as chances de não conseguir. É deste ponto que surgem aquelas pessoas que nunca melhoram, nunca tentam algo novo e estão há anos no mesmo lugar.

Já falei em algum lugar e quero repetir por aqui. O treino do Parkour é um grande quebra-cabeças, constituído de milhares de repetições, tentativas e erros. O momento em que o Tracer desiste de errar, ele para de progredir.

(desde que a tentativa não represente um risco de vida)

4. Não seja fresco

Parkour é um treino sujo. Nos apropriamos de lugares abandonados e becos imundos que servem de banheiro para desabrigados. Raras são as vezes que treinamos em lugares limpos. O topo da maioria dos muros estão sujos de barro, lodo e fumaça de carro misturada com raspa de pneu.

É nojento.

Sangramos nossas as mãos nos muros e estas mesmas feridas voltam ao chão, que depois limpamos esfregando-as em nossas calças.

Um dos movimentos básicos do Parkour é simplesmente rolar no chão. Este chão normalmente não cheira bem e está sujo de coisas de origem duvidosa. Sempre se pergunte antes de sair de casa, “Estou disposto a me esfregar no chão?”. Se a resposta for diferente, já sabe onde não deve ir.

5. Estude mais que Parkour

Por ser uma prática muito nova, os embasamentos teóricos são poucos, quase inexistentes. O Tracer para se desenvolver além das aptidões físicas, precisa se manter atento à livros e ideias que o ajudem neste caminho.

O primeiro livro que li e me trouxe este espirito foi “O Tao do Jeet Kune Do”, de Bruce Lee. O livro aborda ensinamentos filosóficos sobre artes marciais, mas leitor atento poderá observar ao longo da literatura a longa semelhança com os ideais carregados por nós no Parkour.

Livros que seguem este modelo podem ser encontrados aos montes, mas precisam de um longo trabalho de pesquisa.

É essencial que o Tracer não apenas se movimente, mas saiba o motivo e para onde está indo. Apenas muito estudo pode garantir este conhecimento.

Para quem treina em grupo, podem seguir o exemplo do Ibyanga, que comprou dezenas de títulos que vão de filosofia grega à economia moderna, para que seus membros possam ler e compartilhar ideias.

6. Crie situações

Os obstáculos não são apenas aquilo que parecem ser.

Em situações reais onde o parkour poderá ser utilizado, raramente encontraremos um obstáculo a nossa frente, como reproduzimos nos treinos.

Procure criar situações não difíceis para treinar.

Ir correndo paralelamente ao muro e só depois virar para subi-lo. Fazer um salto de precisão de lugares onde o corpo não permite muito movimento. Saltar para um muro e segurar na sua quina. Pense que todo obstáculo possui 360 graus de possibilidades e aproximações e que fugindo de alguém, você poderá esbarrar em qualquer uma destas situações.

Esteja preparado para tal.

Além de criar um posicionamento diferenciado, é importante imaginar situações hipotéticas que ajudem neste trabalho. Que tal fazer precisões com os braços amarrados? Marcar um ponto super pequeno para segurar num salto de braço ou treinar com um pé simulando uma lesão (evitando tocá-lo bruscamente no chão).

Lembre-se, o papel do Tracer é reconhecer dificuldades e crescer a partindo delas.