Continuando a nossa saga em busca dos 50 pontos explicativos que  se comprometeu a publicar em seu blog, trazemos para vocês a segunda parte. Dessa vez o assunto é focado na mente do praticante e traz preciosas análises e pontos de vistas interessantes. Novamente, e não obstante, agradecemos a todas as pessoas por trás da tradução e que deram um duro danado para que esse texto ganhasse vida. Caso tenha perdido a parte um, você pode clicar aqui. Um salve e até o próximo!


50 Maneiras de Ser e Durar no Parkour | Parte 2 – Treinando a Mente


Texto original disponível em:
Power is Nothing Without Control
Tradução por: Bruna Palavro, Duddu Rocha, Igor Scaldini, Marcelo Sanchez, Pedro Almeida, Tacianni Andrade e Vinicius Martins

Na segunda parte desta série de cinco, vou escrever sobre o que acredito ser alguns dos aspectos mais importantes quando se trata de treinar a mente para ser forte dentro desta prática. Estes tópicos não estão em ordem de importância, mas apenas pontuados para fornecer alguns bons conselhos para desenvolver e manter uma mentalidade que nos ajude no treinamento e no crescimento no Parkour. Vamos ser claros: desenvolver uma mente forte é até mesmo mais difícil do que desenvolver um corpo forte, então não espere que isso aconteça da noite para o dia. Parkour não é fácil de nenhum jeito, condição ou forma. Ele vai te testar e eventualmente te empurrar em caminhos que você não vai gostar. Você irá se machucar agora e depois. Todas as vezes que você for treinar ele vai te expor e ressaltar suas fraquezas, físicas e psicológicas, e te dará uma resposta brutalmente honesta se você perguntar: “Então o que eu posso fazer hoje…?”.

Para ler a introdução desta série de artigos e acompanhar desde a parte 1, que abrange o treinamento do corpo, você pode clicar aqui.

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14) A Arte da Guerra

Todo mundo é diferente, mas da forma que eu vejo, quando você remove todas estas camadas externas do Parkour, ele é na sua essência o confronto físico de desafios e obstáculos e a nossa movimentação é a nossa arma para essa batalha. Em todo conflito, iremos alcançar um lado, alguém irá ganhar e alguém irá perder e este também é o caso no Parkour. Quando você está enfrentando um oponente inferior você, há uma grande chance de se obter sucesso, mas você ainda precisará ser calculista em sua abordagem… e o quanto mais próxima a habilidade de seu oponente estiver da sua, maior a chance dele te vencer. E é claro que se você escolhe enfrentar um oponente superior a você então é bom que você tenha uma ótima razão para isto por que você provavelmente irá perder.

Para mim, os saltos trabalham da mesma forma. Até mesmo os fáceis requerem sua atenção e foco, do contrário eles podem chutar seu traseiro. E até mesmo os que são fáceis têm algo para te ensinar. Da mesma maneira, quando você enfrenta saltos mais difíceis que estão mais próximos do seu potencial, você tem que prestar mais atenção e confiar na sua prévia experiência para descobrir qual a melhor forma de se aproximar deles. Você precisa estar confiante em você mesmo, mas ao mesmo tempo não superestimá-los.

E quando se trata de oponentes superiores… enfrentar saltos que estão além da sua habilidade atual é uma receita para o desastre e você se arrisca a adquiri uma lesão ou algo pior. Estes oponentes, ou obstáculos, deveriam ser apenas confrontados como um último recurso.

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, você não precisa temer o resultado de uma centena de batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha você também sofrerá uma derrota. Se você não conhece nem o oponente nem a si mesmo, você sucumbirá em toda batalha”. (Sun Tzu, A Arte da Guerra.)

15) Aceite que algumas vezes o obstáculo irá vencer

Você enfrentará saltos que estão dentro de sua habilidade, mas que você apenas não parece ser capaz de superar hoje e isso será verdadeiro teste de sua humildade e paciência. Nestas situações você geralmente será confrontado com a escolha de uma das duas opções: Você pode ir embora e voltar outro dia ou você pode permanecer e se empenhar no problema na esperança de superá-lo. Algumas vezes você conseguirá, outras não.

Quando você percebe a existência de um salto que te assusta, normalmente abre-se uma breve janela de oportunidade e durante ela existe um diálogo interno bastante benéfico acontecendo na sua cabeça. Essa situação pode durar entre alguns segundos e minutos. Você está comparando-o com saltos anteriores, certificando-se de sua própria habilidade, examinando a área de aterrissagem e o ponto de partida. Você pode até reproduzir (em sua mente) algumas vezes, a corrida e a aterrissagem. Mas definitivamente esta janela da oportunidade irá gradativamente começar a se fechar uma vez que suas dúvidas ganhem espaço. Quanto mais tempo você permanece ali, mais aberto ao medo, à dúvida e a raiva você estará. Você começará a pensar demais no problema e a focar nas possibilidades negativas e, nesse caso, é preciso que você seja um tipo especial de pessoa para contornar a situação, permanecer positivo e forçar a abertura desta janela da oportunidade novamente. Minha esposa descreveu essa cena melhor do que qualquer pessoa que eu já tenha conhecido quando ela me disse que nessas situações ela sente como se estivesse dentro do mar e tentando voltar para a praia. Ocasionalmente uma onda surge para ajudá-la, mas apenas se ela tiver confiança suficiente para se levantar na prancha e remar de volta para a casa… Porém, se ela perder essa oportunidade pode haver uma longa espera até que a próxima onda apareça.

Eu já enfrentei inúmeros saltos então eu entendo perfeitamente essa sensação de perseverar e conseguir… Assim como conheço a sensação de ficar esperando. Se você espera muito tempo, não há possibilidades de encontrar um final feliz. Deixar para lá pode fazer você se sentir frustrado e desapontado, enquanto que superar depois de muito tempo e descobrir que o salto era simples e fácil pode na verdade deixar você se sentindo ainda pior, uma vez que você perceba que perdeu uma hora e meia de seu tempo quando deveria apenas ter aproveitado a primeira onda que veio. Normalmente não resta prazer algum ao enfrentar um salto depois de tanto tempo… É como se você tivesse gasto todo este tempo lutando por algo que você acredita e no final te falarem que sua princesa está em outro castelo.

princess-is-in-another-castle-super-mario-bros“OBRIGADO MARIO! MAS NOSSA PRINCESA ESTÁ EM OUTRO CASTELO!”

Se for um salto que eu sei que posso fazer e eu me sinto forte para isso, então geralmente eu irei pegar a onda de volta para a casa cedo ou tarde, mas outras vezes eu voltarei satisfeito para casa por não ter me chocado contra as rochas.

Com a experiência eu tenho aprendido a reconhecer um salto que não irá acontecer e em vez de enxergá-lo como uma coisa negativa, eu tenho tentado tratar isto um pouco como se estivesse jogando um jogo com um velho amigo. Algumas vezes você ganha, outras você perde, mas o verdadeiro prazer está em jogar o jogo e sempre haverá uma outra onda para se pegar semana que vem.

16) O poder do agora

Agora a porra ficou séria…  vamos deixar de lado as conversinhas sobre decepções e emoções e voltar ao trabalho.

Eu acredito que existem muitas vantagens em se matar um dragão aqui e agora, antes que ele cresça e se torne um animal completamente diferente. É de extrema importância que como ser humano forte, você tenha a capacidade de se empenhar em algo quando você decidir. A vida nem sempre vai esperar por um bom momento antes de jogar a merda no ventilador, então você precisa aprender a acender a faísca e atear fogo no momento certo. Se um dia você precisar fazer algo que nunca fez em seu treino, então vai ser muito mais difícil de obter a coragem em uma ocasião que exige isso. Mas se você está familiarizado com a sensação de empurrar quando você está sendo empurrado… e se você estiver acostumado a ir de cabeça quando a oportunidade surgir, deixar de lado todas as besteiras em sua cabeça e conseguir dar o seu melhor de coração, então você terá vencido o medo e matado o dragão, independente do que aconteça no outro lado. Vencer o medo em um salto é diferente de fazer um. Se você sabe que realmente deu tudo de si e não recuou sequer uma única fibra do seu ser, então independente de ganhar ou perder, falhar ou conquistar, você já terá vencido a batalha mental.

Você vai aprender mais fazendo um salto agora, hoje, neste momento, do que quando voltar e já estiver ‘pronto’ e achando fácil. Claro, você pode encontrar um desafio assustador, ir embora por algumas semanas e treinar saltos semelhantes, ir para o bom ginásio, quentinho e seco, fazê-lo com um colchão e, finalmente, voltar e fazê-lo sem pensar. Mas você vai ter passado por cima de uma parte extremamente importante do processo, se não a parte mais importante do Parkour, que é a de enfrentar desafios de frente e escolher o caminho mais difícil quando ele é apresentado. Saia da sua zona de conforto, busque o desafio e vá fundo. Fique com raiva se precisar, encontre uma razão, um propósito e uma força motriz que faça você realizar o salto. A hora é agora, caramba!

Odeie a ideia de não tentar, mais do que você teme as consequências de não fazê-lo e você vai encontrar uma maneira de vencer o medo.

17) Faça algo que te assusta toda vez que você treinar

Não precisa ser algo aterrorizante, mas algo que te deixa desconfortável. Esta exposição regular ao medo irá gotejar em seu sistema e praticamente construir uma imunidade para essas situações. Você aprenderá a processar e administrar esse medo mais facilmente, criando hábitos e mecanismos para encarar uma experiência assustadora, seja na vida ou no Parkour.

A habilidade de lidar com o medo é uma técnica que pode ser treinada e melhorada como qualquer outra técnica dentro do Parkour. E como qualquer técnica, isso deve ser treinada regularmente se você espera se manter firme e melhorar.

18) Vencendo o Medo

Isso é valido de se abordar com certo detalhamento mesmo que o processo mental seja diferente para cada pessoa. Eu vi pessoas abordarem saltos assustadores de diversas maneiras e tendo níveis diferentes de sucesso. Tudo o que é certo é que não existe um método à prova de idiotas para superar o medo sentido quando encarando um salto novo. O que funciona para mim pode não funcionar para você, mas eu posso te dar alguns exemplos do que eu considero que possa ajudar.

O termo “Break The Jump (Vencer o Medo)” vem de uma expressão francesa e simplesmente quer dizer vencer a barreira do medo e de apreensão que se forma momentos antes de se tentar algo que te assusta. Com prática, pode-se ficar mais fácil vencer esses medos, mas no geral é um processo complicado que pode até ficar mais difícil durante determinados períodos do seu treino. O problema é que quanto mais experiência você tiver no Parkour mais você vai entender como um salto pode dar errado e como cada pequeno machucado/lesão pode te atrapalhar. Quanto mais você ganha em termos de habilidade mais você tem a perder se tudo der errado. No começo isso não é algo que você pensa porque você não tem a experiência para assimilar. É por isso que, normalmente, os iniciantes têm uma facilidade maior em simplesmente pular de cabeça e se jogar. Ignorância é uma benção…

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A primeira coisa que você precisa decidir é se você é uma pessoa que precisa se acalmar para vencer o medo ou se você é alguém que precisa de incentivo. Eu sou um pouco de cada, mas como muitos outros eu prefiro um momento de completa calma logo antes do salto, onde todas as dúvidas flutuam pra longe e eu aperto o interruptor “EU VOU”.

Independente de como você preferir abordar a perda do medo é importante que quando você ligue o interruptor, você dê tudo de si e não se contenha. Se, por exemplo, for uma corrida com um salto no final então você precisa decidir antes de dar o primeiro passo. Pratique corrida com salto o quanto quiser, mas não comece a correr e depois tente decidir se vai saltar lá no final da corrida.  Confiança e previsibilidade minimizam o risco. Hesitação e imprevisibilidade semeiam o perigo. Quando você corre para o salto ainda indeciso, há muita coisa que pode dar errado. A situação é imprevisível porque você não sabe o quanto você investiu e precisa lidar com as coisas de improviso, muito rapidamente. Mas quando você dá tudo de si, então mesmo que você não consiga, você ainda vai saber até onde seu impulso vai te levar e com isso, onde mais ou menos você vai aterrissar. Você vai passar mais tempo no ar, o que te dará um tempo precioso para processar a situação e reagir à aterrissagem.

Para a grande maioria dos problemas no parkour e na vida, se você sabe que consegue dar tudo de si, você vai ficar bem.

Algumas pessoas ouvem o som do ambiente. Outros cantam para si. Muitos encaram e dão as costas várias vezes para o movimento respirando fundo para ter uma perspectiva sempre fresca a cada novo segundo. Eu sou uma das pessoas que faz uma contagem regressiva e, se eu chegar no 1 e tudo ainda parecer certo, eu jogo com confiança. Esse processo de contagem só começa depois de tudo mais ter sido considerado e processado. No momento em que eu já analisei o salto e a aterrissagem, eu bolei um breve plano do que fazer. Se eu passar ou não chegar, eu já bolei um plano para a situação. Se for um salto realmente assustador, mas ainda assim eu quiser fazê-lo, então geralmente eu visualizo a situação em que eu teria que fazer o salto. Eu me convenço de que estando onde eu estou é mais arriscado do que tentar saltar e cair. Isso não é natural e leva tempo e o diabo a quatro. Eu sequer recomendaria isso, tendo em vista que é um pouco extremo… mas funciona para mim.

Vencer o medo é um teste de força de vontade, de autocontrole e auto-conhecimento. Mas existe uma grande diferença em alguém que é cuidadoso e calculista e alguém inconseqüente. O salto em si pode parecer o mesmo, mas a diferença está, novamente, nos detalhes. A intenção e motivação por trás da escolha de realizar o salto podem ser completamente diferentes.

Assistir outras pessoas encarando saltos que estão próximos do seu potencial é uma experiência incrível. Você só consegue entender a situação por completo quando a pessoa e o salto estão no mesmo nível e essa situação só poderia ser mais gratificante se fosse você quem estivesse no lugar dele. No momento você está olhando para essa pessoa, ela esta despida de toda pretensão e todo o ego. Eles não podem mais se esconder atrás de palavras ou falsidades. É tempo de ação. Independente de quantos dos seus amigos estiverem ali, eles estão completamente sozinhos. Ninguém pode saltar por eles e eles sabem disso. O tempo parece ficar inerte ou deixar de existir completamente, os sons ao redor se abafam e toda a sua atenção está em um pequeno ponto da Terra. Há uma invisível, porém inegável, energia no ar, uma vibração de alta freqüência que você não pode ouvir e uma tensão tão densa que pode ser tocada. Como um trem desenfreado, a onda está vindo e você se pergunta se eles vão ter coragem de encarar e ir com ela. Se eles fizerem logo antes de ela os atingir, então algo especial acontece. Meio segundo de imobilidade e calma absoluta. Você pode ver quando eles aceitam, quando eles ligam o interruptor e quando eles vão saltar. Eles são agora vítimas da experiência. Está tudo terminado em um piscar de olhos e, com a aterrissagem, todos os sons voltam correndo. O medo é instantaneamente substituído por alegria e júbilo… E é esse sentimento que torna o Parkour tão viciante.

Independente de como você aborde o processo, procure tornar seu método eficiente ao longo do tempo. Ache algo que funcione para você e treine-o à exaustão, como faria com qualquer outra técnica. Aprenda a confiar no seu método e a refiná-lo ao longo do tempo. No geral, seu objetivo deve ser minimizar o tempo que passa entre você encontrar um salto que queira fazer, e fazê-lo de fato. E isso só é possível após horas e prática.

19) Não assista muitos vídeos

O Youtube tem feito várias coisas boas pelo Parkour, porém é uma faca de dois gumes.  Embora tenha permitido que a prática se propagasse de maneira muito mais ampla em um período de tempo relativamente curto e introduzido o Parkour a um público massivo, também conseguiu fazê-lo de um jeito que eu não acredito que represente o que eu faço. Mais de 90% dos vídeos de Parkour que eu já vi no Youtube são exemplos terríveis da prática que eu conheço e amo. Você precisa cavar por uma pilha de besteira para achar ocasionalmente um diamante e se você se guiar por contagem de visualização ou popularidade, melhor perder as esperanças.

A verdade é que a maioria das pessoas que eu conheço que vivem e treinam Parkour, com o mesmo espírito e motivações que eu, não fazem vídeos toda semana. E se fazem algum é por que acreditam ter algo proveitoso e significativo para compartilhar. Eles fazem esse vídeo porque eles acreditam que isso possa ser benéfico para alguém e possa transmitir a mensagem a outras pessoas dispostas; e não por que eles querem que o mundo veja seu último showreel onde se gastou mais tempo editando do que se movimentando.

Então se alguém recomenda um vídeo a você ou se você tem algum tempo livre, beleza. Não tem problema em gastar uma hora no Youtube para tirar algumas idéias e inspiração ou checar como os praticantes treinam em outro país. Mas se você perceber que a internet está cheia de vídeos com pessoas se movendo de uma maneira que você não se movimenta, se lembre que você definitivamente não está sozinho e a razão de você não ver muitos vídeos que representem a maneira que você treina é porque os outros caras que poderiam fazer isto estão muito ocupados treinando.

Decida o quê e como você quer treinar hoje e não se preocupe com as tendências da comunidade. Eu vejo que essa tendência às vezes é um tipo de precisão em barra, kong precision e double kongs, e as vezes são os cortes de cabelo como o do Justin Bieber,  as calças largas e camisetas apertadas ou as calças apertadas e as camisetas largas e depois de se preocupar com tudo isso eles voltam a se concentrar em algum movimento. Toda essa merda só serve de distração, e deveriam estar muito abaixo das coisas que realmente importam. Então escolha seus próprios valores e decida que movimentos você quer melhorar… e então treine essas malditas coisas!

20) Leia

Leia livros e artigos de fontes confiáveis. Descubra como seu corpo trabalha e cresce. Faça perguntas e ache respostas. Leia livros que agitem sua mente assim como livros que vão te ensinar como se alimentar melhor e se recuperar. Leia livros sobre alongamentos, movimentações, ação e treine para que possa manter e melhorar a máquina mais complexa e importante que existe. Aprenda como a maioria das lesões relatadas em esportes podem ser evitadas e como a dor crônica pode ser aliviada fazendo algumas mudanças simples nos seus hábitos diários e rotina.

Se eu pudesse indicar algumas fontes que foram úteis pra mim nos últimos anos então provavelmente eu recomendaria:

Starting Strength de Mark Rippetoe

Movement de Gray Cook

Becoming a Supple Leopard de Kelly Starrett

Hagakure de Yamamoto Tsunetomo (Autor) and William Scott Wilson (Tradutor)

… e qualquer coisa escrita por Jim Wendler.

21) Treine sozinho

Há algumas vantagens em treinar em grupos pequenos. Esses pontos serão discutidos na Parte 3. Mas no que se refere ao treinamento da parte mental, não há forma melhor para aprimorar certos elementos do que treinando sozinho.

Até mesmo os mais humildes abrigam um ego que só aparece quando está na presença de outras pessoas.

Esse é o motivo porque você se porta ligeiramente diferente quando alguém entra no seu quarto, ou então quando você muda a maneira como fala dependendo de quem está conversando com você. Essa é a razão da sua atitude defensiva quando alguém questiona suas atitudes, mesmo que eles tenham a melhor das intenções. É também a razão das suas desculpas, quando você não quer admitir que esta com medo de fazer aquele salto, e te faz dizer: “Eu poderia saltar isso facilmente se não estivesse machucado”.

Mas quando removemos as influências externas da equação, você fica sozinho com você mesmo, com todas as fraquezas e defeitos em evidência. Assim podemos ser honestos e relaxar um pouco. Nossa mentalidade muda, e nossa forma de pensar, agir e treinar muda também. Já não levamos mais em conta a opinião alheia durante aquela aterrissagem e também não nos preocupamos em desistir de fazer aquela precisão. É libertador! Mas também é mais assustador em alguns aspectos! Sem um amigo para te ajudar, ou te encorajar, ou sem a pressão de alguém te observando, de repente suas motivações se tornam totalmente internas. Você não faz mais aquilo só porque teu amigo espera que você faça. Não. A única razão para fazer alguma coisa agora é porque você quer, porque você escolheu fazer. Ninguém saberá se você conseguiu ou não fazer, portanto a decisão de fazer aquele movimento assustador é motivada somente pela sua força de vontade. É meio egoísta, mas é a melhor maneira.

Talvez você que está lendo isso agora pense que eu sou um idiota egoísta, mas eu estou apenas tentando mostrar que isso é uma coisa que está dentro de todos nós, de alguma forma. Alguns mais que outros. Todos nós conhecemos alguém com um ego ridículo, que não consegue parar de falar sobre si mesmo e suas conquistas; mas até mesmo os mais calados, os mais tranqüilos, têm essa característica dentro de si, nem que seja apenas um pouquinho. No fim das contas, eu acho que essa é uma característica normal e boa dos seres humanos. É um gesto de boa educação e auto-conhecimento pensar sobre seus maus hábitos e ser um pouco mais cuidadoso quando na presença dos outros. Mas por favor, faça umas loucuras de vez em quando, e experimente situações intensas e assustadoras quando estiver sozinho. Você não vai se arrepender.

22) Aceite que sua família e seus amigos não vão entender.

Desculpe, mas eles simplesmente não vão entender Parkour a menos que eles se esforcem pra entender, e se empenhem nisso por um longo período de tempo. Você pode explicar e descrever com riqueza de detalhes, mas eles nunca vão verdadeiramente compreender o que te leva a praticar Parkour ou as mudanças psicológicas que ocorrem durante o tempo de treino, a menos que eles experimentem treinar também. Eles podem pensar que entenderam e você pode acreditar que eles realmente entenderam. Mas o Parkour precisa ser vivido para ser entendido. Aceite que cada pessoa é diferente, da mesma forma que você quer que sua família saiba por que você faz essas “coisas malucas”. Às vezes a ignorância é uma dádiva.

É possível fazer bons amigos rapidamente no Parkour, por que você conhece as pessoas como elas realmente são. Em apenas um dia de treino você pode ver a mesma pessoa sorrindo, chorando e sangrando. Você as verá com medo, determinadas, corajosas, egoístas, altruístas, felizes e tristes. Tudo isso porque você está passando um tempo com pessoas num ambiente de grande estresse, dividindo experiências juntos. A união é feita de forma mais rápida e também mais forte quando você está junto a pessoas que você gosta. Conhecer as pessoas pelo que elas verdadeiramente são durante os treinos é um atalho que pode economizar meses ou anos, mesmo que você tenha visto essa pessoa diariamente no seu trabalho ou na escola. Na verdade, antes de casar com alguém, coloque essa pessoa para fazer um salto assustador, se você quiser conhecer quem essa pessoa realmente é. Ele(a) pode eventualmente não pular, mas sua humildade, honestidade e sua capacidade de avaliar a situação pode revelar muito sobre a pessoa.

23) Agora, e de novo, faça algo louco.

Eu não sou um estranho quando o assunto são desafios físicos ridículos e eu acho que você também não deveria ser. Eles não fazem nenhum sentido, uma vez que os seus treinos continuam a acontecer de forma linear e progressiva, e você não deveria fazer isso toda semana ou mesmo todo o mês. É importante entender que esses desafios loucos são mais para a mente do que para o corpo. Não ajudaria no boxe e nem na busca por títulos, o cara gastar mais de uma hora sendo socado no rosto, por um brutamonte; mas essa experiência dá a chance de mostrar tudo que ele tem e testar se ele está suficientemente bom, ou não, naquele dia. Ganhar ou perder, passar ou falhar, você finaliza a experiência conhecendo a si mesmo, suas capacidades e seus limites, como nunca havia feito antes.

De vez em quando, saia da sua zona de conforto e veja até onde você pode forçar, até onde pode suportar, até que o seu corpo desista. Para saber do que você é capaz, você precisa ir mais longe do que foi antes e mais longe do que lhe é razoável, ou recomendável. Você precisa ir até o ponto onde o seu corpo peça para parar e então, continue só mais um pouco.

Um corpo forte é vulnerável sem uma mente forte para controlá-lo e a experiência, a confiança e auto-conhecimento que você vai adquirir com esses desafios, irão ajudá-lo a se tornar uma pessoa mais forte.

Então, se são três horas de quadrupedal, 1000 planches, um quilômetro de equilíbrio em um corrimão, 500 saltos seguidos, uma corrida até a cidade mais próxima voltando ao escurecer, carregar o seu amigo até a casa dele que fica a alguns quilômetros dali, escalar uma montanha no escuro, ou qualquer que seja o seu sonho… Escolha algo difícil, mas que você saiba que tem uma ligeira chance de completar… Um desafio não é um desafio se você já sabe que é capaz de concluí-lo. Sonhe alto e deixe no ar a dúvida se você é capaz. Agora, você deve correr atrás disso.

24) Esvazie a sua mente

…e a preencha com 80 filmes de ação e suas trilhas sonoras.

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